Reinaldo Polito Publicado em 16/03/2025, às 09h28
Lula pisou na bola, mais uma vez, ao comentar que havia convidado Gleisi Hoffmann para facilitar a articulação com o Congresso porque ela é bonita. Tenho dó. O presidente é de outra época. Sim, não nos esqueçamos de que o homem já está beirando os 80 anos. Esse cidadão atravessou décadas absorvendo valores de gerações anteriores, em uma época em que o machismo era amplamente aceito e pouco questionado.
Hoje, os tempos são outros. As mulheres consideram, quase sempre, uma ofensa verem destacadas suas qualidades estéticas quando o que as levou à ascensão profissional foi o preparo, o estudo e a experiência.
O risco dos comentários impensados
Ainda que alguns homens, já com certa idade, tenham passado pelas mesmas transformações sociais de Lula e vivam cercados por mulheres, como esposa, filhas e netas, vez ou outra escorregam em seus comentários. Por mais que fiquem atentos, correm o risco de pronunciar palavras que saíram antes de o pensamento filtrar o significado do que estava sendo dito.
Portanto, é possível criticar Lula com severidade, especialmente levando em conta o cargo que ocupa e o que o seu exemplo pode representar para as mulheres. Ao mesmo tempo, seria possível também relevar seus comentários, pois, com certeza, não foram intencionais. Acredito que o seu objetivo fosse o de elogiar com sinceridade.
A ideologização do feminismo
O problema é que essa questão do feminismo foi ideologizada. Se for um homem de viés conservador a fazer comentários que possam desabonar uma mulher, os progressistas não pouparão palavras para chamá-lo de misógino, machista, sexista. Se encontrarem um meio de castigá-lo com processos judiciais ou cancelamento diante da opinião pública, não hesitarão.
Da mesma forma, como neste caso, se o discurso for proferido por um progressista, os conservadores não perdoarão o deslize. Cerrarão fileira para mostrar como esse tipo de referência é contraditório, pois vai de encontro às ideias que os desafetos defendem como verdadeira bandeira para os seus objetivos políticos.
A seletividade das críticas
Sim, em muitos casos, essa defesa de certas posições é seletiva. Se o desavisado pertencer ao espectro ideológico contrário, será jogado no fogo do inferno. Se, por outro lado, pertencer à mesma agremiação, as críticas serão brandas, mais voltadas a minimizar o erro do que a condená-lo.
Neste episódio de Lula, por exemplo, Gleisi Hoffmann, que seria a vítima do pronunciamento do petista, se apressou em defendê-lo, aproveitando a oportunidade para criticar Bolsonaro, seu oponente político, que não tem nada a ver com a história.
A defesa de Gleisi Hoffmann
A ministra da Secretaria de Relações Institucionais do governo federal disse: “Não me intimidam nem me acuam. Oportunistas tentando desmerecer o presidente Lula. Gestos são mais importantes que palavras.”
Em outra oportunidade, enfatizou: “Não é qualquer líder que ousa lançar a primeira mulher presidenta do país, a primeira mulher presidenta do PT, o que mais nomeou mulheres ministras, nas estatais, no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal, no STM e outros tantos lugares. Que moral vocês têm?”.
Os pesos e medidas diferentes
Não foi essa mesma postura que os progressistas adotaram quando, por exemplo, Bolsonaro, ao fazer uma brincadeira infeliz, mas que não passava de uma brincadeira, disse em uma palestra, quando ainda era deputado federal, que tinha quatro filhos, aí deu uma fraquejada e nasceu uma mulher. Era só uma ironia, sem intenção de ofender as mulheres, mas que com o tempo perdeu a atualidade e a graça.
Os opositores nunca o perdoaram. Até hoje, ele carrega a pecha de machista e misógino, rótulo que seus adversários políticos consideram conveniente manter vivo. Michel Temer foi outro que caiu em desgraça ao dizer que as mulheres sabiam como controlar as compras e administrar a economia doméstica.
A instrumentalização política do feminismo
Essa instrumentalização política do feminismo prejudica as conquistas das mulheres. Elas, que lutaram e lutam tanto para serem reconhecidas por seus atributos intelectuais e profissionais, acabam por ser pressionadas por esses interesses ideológicos. Se a esquerda não tivesse levado esse assunto a fronteiras tão extremas, esse erro de Lula poderia ser visto como simples deslize e vida que segue.
Como são virulentos nas críticas, quando o outro lado desliza, por mais que tentem explicar, não conseguirão neutralizar o bombardeio dos oponentes. Esse embate não tem previsão de fim. Cabe às mulheres manterem suas conquistas e garantirem que sua causa não seja capturada por interesses políticos passageiros.