Reinaldo Polito Publicado em 08/12/2024, às 08h07
As manchetes desta semana anunciam um feito histórico - a pobreza no Brasil teria alcançado níveis mínimos, algo que, sem dúvida, merece aplausos. Quem não se alegraria ao saber que mais brasileiros deixaram de passar fome?
Ainda que alguns encarem esses dados com ceticismo, alegando sem provas uma possível manipulação, ninguém pode ignorar a importância da notícia. Se ela estiver bem embasada, é uma conquista a ser celebrada.
Mudança de postura
Não deixa de ser curioso, entretanto, observar a mudança de postura em relação a esse mesmo tema, ao longo do tempo. Anos atrás, tentei destacar em um artigo a redução da pobreza no país, uma informação que também era respaldada por um órgão oficial, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).
Cheguei a consultar diretamente o então presidente do instituto, Erik Figueiredo, que não apenas confirmou os dados, como fez questão de respaldá-los publicamente. Imaginei que, com tamanha autoridade legitimando a informação, não haveria objeções. Estava enganado.
Fecharam questão
A redação do veículo com que colaborava simplesmente não aceitou. Alegou dúvida, falta de confiabilidade, pediram que eu removesse aquela parte do texto. Insisti: “Mas é o próprio IPEA que garante, com o endosso do seu presidente!” Não adiantou. Fui forçado a suprimir a menção ao feito, que, vale lembrar, já era real e oficial naquela época.
Passado algum tempo, eis que os mesmos dados, com números idênticos, ganham holofotes – agora chancelados por uma grande instituição internacional, o Banco Mundial. Aquelas cifras antes tratadas com desconfiança surgem nas manchetes como um fato incontestável, digno de orgulho nacional.
A vingança do presidente
O que mudou, afinal? Os números sempre estiveram lá, a realidade não sofreu uma reviravolta repentina. A diferença parece estar no contexto político, nos filtros editoriais e, por que não dizer, nas conveniências ideológicas.
Ao tomar conhecimento da divulgação, agora com o aval do Banco Mundial, Erik Figueiredo me enviou uma mensagem irônica: “Polito, eles já estão pedindo desculpas a você?” Sua pergunta carrega uma ponta de sarcasmo compreensível - afinal, por que a imprensa, que antes rejeitava a informação fornecida por uma instituição brasileira de reconhecida credibilidade, hoje a acolhe sem hesitação após o aval estrangeiro?
Pergunta retórica
Será que os dados se tornaram subitamente mais confiáveis, ou o fato de não elevarem mais a imagem de Bolsonaro abriu caminho para a aceitação plena? A pergunta é retórica, já que bastou trocar as cores partidárias do governo para que houvesse comemoração diante do mesmo fato.
Essa mudança de atitude, marcada pelo tempo e pelo contexto, sugere que a divulgação de certas notícias positivas encontra obstáculos quando não se alinham à narrativa predominante do momento. Não se trata de desmerecer o jornalismo ou negar sua importância, mas de reconhecer que preferências e preconceitos podem influenciar o que chega às páginas dos jornais.
Autocensura
O resultado é um público que, por vezes, recebe informações filtradas, ajustadas ao sabor das circunstâncias, em vez de um retrato fiel e isento da realidade. Sem contar que diante desse tipo de posicionamento, o próprio autor acaba desenvolvendo uma espécie de autocensura.
Em meio a esse cenário, vale lembrar as palavras de Maria Ressa, jornalista filipina reconhecida internacionalmente e vencedora do Prêmio Nobel da Paz: “Sem fatos, você não pode ter verdades; sem verdades, não pode ter confiança; sem confiança, não pode ter uma democracia funcional.” Esse alerta reforça a necessidade de um jornalismo comprometido com a verdade, capaz de superar vieses e resistências ideológicas.
Nas entrelinhas
Hoje, comemoramos a queda da pobreza. Ontem, a mesma informação foi sufocada, mesmo tendo a garantia do IPEA e de seu presidente. Essa contradição nos convida a olhar com mais atenção para os mecanismos invisíveis que selecionam o que merece destaque e o que deve ser ignorado.
Em um cenário assim, cabe ao leitor manter um olhar crítico, comparar fontes e não se contentar com uma única versão dos fatos. Só então poderemos celebrar as boas notícias de forma legítima e sem o desconforto de perceber que, em certas circunstâncias, a verdade só tem vez quando a conveniência permite. Jamais devemos nos esquecer de que as informações não estão somente nas linhas, mas sim nas entrelinhas.