COLUNA

O governo dorme no ponto e é derrotado no Congresso. Mais uma vez

Inesperada vitória da oposição na CPMI do INSS deixa o governo em alerta e revela fragilidades na articulação política

Governistas enfrentam um cenário desafiador após perder o controle da CPMI, levantando questões sobre sua capacidade de articulação - Imagem: Reprodução

Reinaldo Polito Publicado em 24/08/2025, às 12h44

O governo vacilou e perdeu o comando da CPMI que vai investigar as fraudes no INSS. Estava tudo certo para a eleição de um presidente governista para o colegiado. De repente, os parlamentares aliados de Lula perceberam que haviam contado com o ovo antes de a galinha botar. Não botou.

Omar Aziz (PSD-AM) já comemorava a vitória com pompa e circunstância. Era até chamado de presidente pelos corredores do Congresso. Afinal, seu nome havia sido indicado pelo todo-poderoso presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Não só. O acordo para nomear o relator já estava selado, seria o deputado Ricardo Ayres (Republicanos-PI), chancelado por Hugo Motta (Republicanos-PB).

Viraram o jogo na calada da noite

Os oposicionistas fizeram uma reunião na calada da noite para combinar uma estratégia vencedora. Os governistas, que dormiam em berço esplêndido, não perceberam a movimentação. Foram para a votação com o sorriso de ponta a ponta. Começaram a ficar amarelos ao perceber que Carlos Viana (Podemos-MG) havia apresentado a sua candidatura e era apoiado pela oposição.

Uma jogada e tanto. Três deputados aliados não compareceram e, pelas normas da CPMI, foram substituídos por outros do PL. Não se sabe se a ausência foi descuido, confiando na vitória já garantida, ou se houve persuasão da oposição para que se ausentassem. Neste caso, contribuiriam para a derrota governista sem precisar justificar a postura. No final, Viana levou 17 votos contra 14 de Aziz.

Os oposicionistas farão um arrastão

Assim que assumiu a presidência, Viana indicou para a relatoria o deputado Alfredo Gaspar (União-AL). Alguns, ingenuamente, poderão perguntar: mas qual o problema? O importante não é descobrir a verdade? Sim, “juninho”, na teoria. Na prática, as crianças precisam sair da sala. Primeiro, porque há um velho ditado: “Você sabe como uma CPI começa, mas nunca como vai terminar”. Segundo, porque esqueletos vão ser retirados do armário.

Só para dar dois exemplos do inferno que os governistas terão de enfrentar. Gaspar já havia publicado um texto dando sua opinião sobre os desvios de dinheiro dos velhinhos: “O governo do PT foi o grande responsável por desviar R$ 6 bilhões. Isso é um crime de proporções gigantescas”. Dá para imaginar o que ele fará com esse poder na mão nos próximos meses. Um arrastão.

O tamanho do estrago

Outro assunto que provoca pesadelos nos governistas é a convocação de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, nada menos que irmão de Lula. Se a composição da mesa fosse aquela idealizada pelos aliados do governo, provavelmente, ele jamais seria interrogado. Quem tiver dúvida, basta lembrar da CPI da Covid-19. Observe como alguns foram recebidos com tapete vermelho, enquanto outros, ao contrário, ameaçados de prisão. E não custa lembrar: aquela CPI ajudou a provocar de forma decisiva a derrota de Bolsonaro em 2022.

E tudo isso às vésperas das eleições. Por mais que se queira esconder o assunto, as sessões serão transmitidas pela TV e comentadas à exaustão pela imprensa. Com essa polarização política que se instalou no país nos últimos tempos, a oposição chegará com a faca nos dentes para enfraquecer Lula e suas pretensões eleitorais no pleito de 2026. Não se discute agora se Lula será prejudicado, mas sim qual o tamanho do estrago.

Governistas já são ‘fregueses’ do Congresso

Depois de o leite derramado, os governistas, indignados, procuraram culpados para a derrota. Passado o susto, precisam encontrar meios para minimizar a dimensão da encrenca. É de se pensar: se foram incompetentes e perderam o comando da CPMI que já estava nas mãos, como poderão encontrar forças para virar esse jogo que pende favoravelmente para os adversários?

Na verdade, Lula e seus aliados têm se mostrado frágeis na interlocução com o Congresso. Já faz tempo que perdem batalhas importantes. Por estarem desprevenidos, sem força de articulação, foram acumulando derrotas em assuntos que eram caros às causas governistas. Vamos a alguns exemplos para ilustrar.

Exemplos de derrotas memoráveis

Uma das sacudidelas mais expressivas ocorreu em maio de 2024. A Câmara e o Senado derrubaram o veto do chefe do Executivo para a lei que proibia as saidinhas temporárias de presos. Outro nocaute foi a derrubada de veto presidencial a respeito da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). E, como pá de cal, o descarte da proposta apresentada por Orlando Silva (PC do B) quando tentava emplacar o PL das Fake News.

Para reverter essa sova na CPMI do INSS, será preciso uma força-tarefa descomunal na tentativa de proteger a imagem palaciana. Se continuar agindo com esse primarismo como tem agido em incontáveis episódios, as consequências poderão ser inimagináveis. Com ou sem culpa, no fim o resultado deverá ser revelado nas urnas. Siga pelo Instagram: @polito

eleições Lula Bolsonaro Congresso Governo Davi Alcolumbre INSS ESTRATÉGIA OPOSIÇÃO CPI

Leia também