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A decisão dos Estados Unidos sobre o narcoterrorismo no Brasil complica Lula

- Imagem: Reprodução/Chatgpt

Reinaldo Polito Publicado em 31/05/2026, às 09h00

Lula vive um dilema. Depois que os Estados Unidos decidiram classificar PCC e CV como organizações terroristas, o tema passou a ser um grande problema para sua campanha. A comunicação do governo precisa ser muito bem pensada. Uma vírgula fora do lugar em seus pronunciamentos poderá ser mal interpretada pela população.

O presidente brasileiro tentou de todas as formas impedir que essa medida fosse tomada. Em sua visita a Washington no início de maio, o petista chegou a incluir esse pleito na pauta do encontro com Trump. Tanto assim que houve surpresa com o anúncio das medidas. Nos primeiros pronunciamentos, o governo ainda buscava construir uma narrativa mais consistente para enfrentar o desgaste provocado pela decisão americana.

A relojoaria das palavras

Não que Lula tenha improvisado em suas falas, já que bastou repetir os argumentos que tem defendido nos últimos tempos. Afirma que foi proposta uma ação de cooperação bilateral para combater o crime organizado e que o país trata o tema como prioritário para a segurança pública.

O problema todo reside na sutileza da comunicação em uma época vital para a campanha eleitoral. Como a criminalidade e a insegurança estão entre as maiores preocupações dos brasileiros, a oposição leva enorme vantagem na discussão da matéria. Afinal, quem está no governo é que deveria ter agido para impedir que o problema alcançasse as proporções atuais.

Posição desconfortável

Se Lula for muito enfático no ataque a essas medidas, poderá dar a impressão ao eleitorado de que, de alguma maneira, defende a bandidagem. Também argumentar que, com essa classificação, há o risco de que os Estados Unidos interfiram na soberania brasileira não é uma mensagem que as pessoas entendam com facilidade.

Já Flávio Bolsonaro, nos diálogos com Trump, insistiu para que essas medidas fossem tomadas com urgência. Nem bem saiu do Salão Oval, onde boa parte da imprensa e os governistas diziam que só serviu para tirar uma foto, e veio o anúncio de que os pedidos do candidato oposicionista haviam sido atendidos.

Caiu no colo de Flávio

É mesmo um dilema. Lula não pode se desdizer e mudar o discurso agora no meio do caminho. Nada justificaria que desse apoio à ideia depois de ter criticado de forma tão enfática essa posição. Por outro lado, tem de pisar em ovos para que o discurso não desande por um rumo inconveniente. Em todas as hipóteses, seria uma atitude negativa para suas pretensões à reeleição.

Talvez Flávio não esperasse um presente tão valioso. O assunto de suas entrevistas passa a ser menos sobre suas conversas com Daniel Vorcaro, notícia que já perde força nas primeiras páginas da imprensa, e mais a respeito dos aspectos negativos e positivos dessa classificação das facções criminosas como terroristas.

Argumentos frágeis

A oposição encontrou um discurso de campanha que deve perdurar. Já na pré-campanha os tambores estão retumbantes: “A partir de 2027, nós vamos libertar você. Porque você merece ser livre desse governo paralelo, violento e covarde”. Sem comparação com essa conversa considerada chata pela população sobre interferência na nossa autonomia.

O ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, até que ensaiou um contraponto: “Será que os Estados Unidos também vão classificar como terrorista a milícia do Rio de Janeiro ligada aos Bolsonaro?”. É como se fosse um tiro de espingarda para enfrentar um canhão. A turma vai ter de queimar as pestanas para encontrar saídas mais eficientes.

Sem querer, a imprensa realimenta

Há também um ponto que precisa ser analisado. Boa parte da imprensa procura fazer coro com as teses governistas. Só que essa defesa, por mais competente que possa parecer, acaba por se transformar em propaganda natural para Flávio. Quando dizem que o adversário de Lula foi o responsável por essa solicitação aos americanos, estão revelando que a iniciativa foi dele.

Sem contar que a inclusão na lista de terroristas internacionais ocorrerá no dia 5 de junho. Ou seja, quando o assunto poderia esfriar um pouco, a data da implementação trará o tema novamente à baila. É como se o adversário em uma luta de boxe voltasse para a luta depois da contagem de nove. Ficaria em pé ainda grogue para receber mais pancadaria.

Talvez uma saída do governo para afastar o estrago dessa notícia seja a de criar uma cortina de fumaça para desviar o foco da discussão. Os políticos são craques em arrumar esses artifícios. Só não podem deixar evidente que a intenção foi apenas essa.

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