COLUNA

16 de fevereiro, dia da morte de Jânio Quadros

Jânio Quadros, ex-presidente da República, em 1961 - Imagem: Reprodução / Wikipédia

Reinaldo Polito Publicado em 16/02/2025, às 10h57

Jânio Quadros foi um dos políticos mais astutos e bem-sucedidos da história do país. Nasceu no dia 25 de janeiro de 1917, em Campo Grande, e morreu em 16 de fevereiro de 1992, em São Paulo. Em menos de 15 anos, saiu de vereador em São Paulo e chegou à Presidência da República.

Nesse período, ocupou praticamente todos os cargos eletivos: vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, governador e presidente. Como Presidente da República, tomou posse em janeiro de 1961 e renunciou ao cargo em agosto do mesmo ano. Um fato curioso é que, em 1985, voltou a se eleger prefeito de São Paulo.

Um discurso para cada tipo de plateia

Além de político, foi advogado, professor e escritor. Sua oratória era admirável. Sabia, como poucos, cativar todos os tipos de plateias. Seus discursos eram proferidos com linguagem impecável, sem nenhum deslize gramatical. Transitava com desenvoltura em qualquer circunstância, desde os comícios na Vila Maria, seu maior reduto eleitoral, até as elites mais sofisticadas.

Tive o privilégio de estar com ele algumas vezes. Em cada um desses episódios, sua presença marcante deixava histórias para serem contadas. Vou relatar duas das mais interessantes.

Muito atrasado

Uma delas foi em um encontro com empresários do setor TRR, empresas que forneciam combustível para locais específicos, especialmente fazendas.

Jânio chegou mais de uma hora depois do horário marcado. Eu estava lá porque havíamos combinado de conversar sobre um evento em que ele participaria na minha escola. Vários empresários já estavam indignados, reclamando da falta de comprometimento do convidado.

Tirada genial

Fiquei curioso para ver como ele contornaria a hostilidade do ambiente. Foi brilhante. Caminhou com andar trôpego pelo corredor e, quando estava bem no meio da plateia, disse com voz sofrida:

— Os senhores estão diante de um paletó à procura de um cabide.

Ninguém esperava por esse comentário. Todos riram e se esqueceram do atraso.

Formalizei ali o convite para que fosse paraninfo das nossas turmas de oratória. Aceitou com entusiasmo:

— Estarei lá sem falta, Polito. E vou caprichar no discurso.

Uma presença marcante

Os alunos vibraram com a notícia, pois, independentemente de preferências políticas, viam nele um exemplo de grande orador.

Sua presença na solenidade atraiu muitos políticos. Todos queriam tirar uma foto e apertar a mão daquele que se transformara em lenda viva no país. Tentei de todas as formas impedir que usassem a palavra, mas eram matreiros e conseguiram burlar a vigilância. Muitos falaram.

Reconquistou a atenção com uma história

O excesso de discursos cansou a plateia. Quando chegou a vez do paraninfo se apresentar, os ouvintes já estavam exaustos. Depois de alguns minutos, Jânio percebeu que começava a perder a atenção do público. Por mais que estivessem interessadas, as pessoas simplesmente não conseguiam se concentrar.

A impressão era de que estavam ali de corpo presente, mas os pensamentos já voavam para fora do recinto. Mais uma vez, de maneira admirável, usou um recurso de oratória para trazer a audiência de volta ao ambiente. Depois de uma pausa prolongada e muito bem planejada, surpreendeu a todos com esta história:

— Recordo-me, por exemplo, de quando fazia uma conferência em uma das universidades de São Paulo — e chamo de conferência pomposamente a uma palestra. Um aluno me interrompeu pouco mais ou menos assim: "Você poderia dizer-me...?"

Após outra pausa estratégica, já capturando a atenção da maioria, continuou:

— Eu cortei o cerce. Disse a ele: "Você é uma contração do pronome ‘vossa mercê’, muito utilizado pelos senhores contra os escravos. Já ouviu falar em Benjamin Franklin? Não, não me refiro ao inventor dos para-raios. Refiro-me ao orador, diplomata e pensador. Pois ele afirmou que a intimidade só produz aborrecimentos e filhos, e com o senhor não desejo nem uma coisa nem outra."

A plateia já estava na mão

Diante daquele relato inusitado, a plateia irrompeu em estrondosa gargalhada. A partir desse momento, tendo conquistado a atenção de todos, pôde desenvolver sua apresentação com a certeza de que os ouvintes estariam atentos às suas palavras.

Naquele ano, venceu a disputa com Fernando Henrique Cardoso e voltou a ser prefeito de São Paulo. A nota curiosa é que Fernando Henrique, com a certeza de que seria o vencedor, concordou em posar para a capa da revista Veja, sentado na cadeira de prefeito. No dia da posse, Jânio borrifou a cadeira com uma bomba de inseticida e comentou:

— Desinfeto porque nádegas indevidas se sentaram nela.

Pois é, hoje faz 33 anos que Jânio Quadros, que marcou a vida política brasileira com sua competência estratégica, preparo intelectual e bom humor, nos deixou. Suas histórias, entretanto, continuam vivas para serem contadas.

PRESIDENTE HISTÓRIA PREFEITO ORATÓRIA Política político RENÚNCIA orador Jânio Quadros

Leia também