Lula volta a citar enforcamento de traidores e eleva confronto com Flávio Bolsonaro

Durante convenção que oficializou o apoio do PDT à sua reeleição, presidente atacou brasileiros que buscam punições contra o país nos Estados Unidos; declaração repete discurso que já motivou uma notícia-crime apresentada pelo senador ao STF.

Lula discursa durante convenção nacional do PDT em Brasília, evento que oficializou o apoio do partido à reeleição do presidente e foi marcado por novas críticas a Flávio Bolsonaro e à atuação de brasileiros nos EUA - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Silva Publicado em 22/07/2026, às 15h00

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a mencionar o enforcamento como antiga punição destinada a traidores da pátria durante um discurso que elevou a tensão política com o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro.

A declaração foi feita na segunda-feira, 20 de julho, durante a Convenção Nacional Partidária e Eleitoral do PDT, realizada na sede da legenda, em Brasília. No encontro, o partido aprovou por unanimidade o apoio à tentativa de reeleição de Lula nas eleições de 2026.

Ao defender a soberania nacional, Lula afirmou que brasileiros estariam viajando aos Estados Unidos para pedir a aplicação de punições contra o Brasil.

“Neste país, antigamente, traidor era enforcado, porque trair a pátria é algo muito grave”, declarou o presidente.

Embora não tenha citado Flávio Bolsonaro nominalmente nesse trecho, Lula mencionou o senador logo depois, ao desafiar o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a vir ao Brasil e apoiar publicamente a candidatura do adversário. O presidente afirmou que derrotaria Flávio mesmo diante de uma eventual participação de autoridades dos Estados Unidos na campanha.

A fala ocorreu em meio à disputa entre Lula e Flávio pela responsabilidade política sobre a nova tarifa de 25% aplicada pelo governo de Donald Trump à maior parte dos produtos importados do Brasil.

As tarifas entraram em vigor nesta quarta-feira, 22 de julho. Segundo o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, a medida atinge a maior parte das importações brasileiras, mas preserva produtos como carne bovina, suco de laranja, aeronaves, peças aeronáuticas e itens do setor energético.

O governo norte-americano justificou a medida com base em uma investigação conduzida pela Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Entre as acusações apresentadas estão supostas barreiras comerciais, problemas relacionados à propriedade intelectual, dificuldades de acesso ao mercado de etanol, comércio digital e falta de combate efetivo ao desmatamento ilegal.

O documento oficial divulgado pelo USTR não atribui a Flávio Bolsonaro a responsabilidade direta pela criação da tarifa. A acusação de que integrantes da família Bolsonaro teriam contribuído politicamente para as medidas faz parte da narrativa apresentada pelo governo Lula e é negada pelos envolvidos.

Marco Rubio, por sua vez, responsabilizou o governo brasileiro pelo resultado das negociações. Segundo o secretário de Estado, Lula não teria negociado de boa-fé com os Estados Unidos. Flávio também atribuiu o aumento tarifário à condução diplomática do governo federal.

Lula sustenta que membros da família Bolsonaro atuaram junto ao governo Trump para provocar sanções e desgastar sua administração durante o período eleitoral. A família nega ter defendido medidas prejudiciais às empresas e aos trabalhadores brasileiros.

Segunda declaração sobre enforcamento

Esta não foi a primeira vez que Lula relacionou os adversários políticos à antiga punição destinada a traidores.

Em junho, durante uma cerimônia de inauguração de um campus do Instituto Federal de Goiás, o presidente chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de traidores e vendilhões da pátria. Na ocasião, afirmou que Joaquim Silvério dos Reis, responsável por denunciar os integrantes da Inconfidência Mineira, teria sido enforcado.

A declaração continha um erro histórico. Quem foi enforcado e esquartejado pela Coroa portuguesa foi Tiradentes. Joaquim Silvério dos Reis foi beneficiado por ter denunciado o movimento e morreu posteriormente de causas naturais.

Após aquele discurso, Flávio Bolsonaro apresentou uma notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal e pediu que Lula fosse investigado por suposta ameaça e incitação ao crime.

Na ação, o senador argumentou que a manifestação do presidente não poderia ser considerada apenas uma metáfora histórica. Segundo Flávio, a declaração teria sugerido que ele e outros integrantes da família Bolsonaro mereceriam morrer enforcados.

Discurso eleva tensão da campaha

A repetição da referência à forca acontece em um ambiente de crescente radicalização da disputa presidencial.

Lula tenta transformar a crise comercial com os Estados Unidos em uma discussão sobre soberania nacional e interferência estrangeira. Flávio, por outro lado, procura responsabilizar o governo federal pelo fracasso das negociações comerciais e pelos prejuízos provocados aos exportadores brasileiros.

Com a oficialização do apoio do PDT, o presidente também passou a ampliar sua base partidária para a campanha. A legenda afirmou que a aliança está fundamentada na defesa da democracia, da soberania nacional e dos direitos sociais.

A nova declaração de Lula deve aumentar a pressão da oposição sobre o Palácio do Planalto e aprofundar o confronto entre os principais adversários da disputa presidencial de 2026.

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