Esquema ligado ao Comando Vermelho usava imóveis de luxo e rota fluvial para exportação
Gabriela Nogueira Publicado em 17/11/2025, às 16h57
Uma operação da Polícia Civil do Amazonas revelou, no coração de um dos bairros mais valorizados de Manaus, uma mansão transformada em centro de armazenamento e distribuição de drogas. O imóvel luxuoso, equipado com piscina de borda infinita e até campo de futebol, funcionava como base logística de um esquema ligado ao Comando Vermelho, segundo os investigadores.
A ação, realizada pelo Departamento de Investigação sobre Entorpecentes (Denarque), expôs mais uma camada da estrutura do crime organizado na Amazônia — região onde rios extensos, áreas remotas e rotas fluviais favorecem deslocamentos rápidos e dificultam o trabalho policial. Durante a operação, deflagrada em 17 de outubro, foram apreendidos 16 quilos de cocaína e uma substância até então pouco vista no país: a chamada “cocaína negra”.
A droga, adulterada com compostos como carvão ativado, se apresenta em tonalidade escura e é projetada para passar despercebida por cães farejadores e testes de campo. Após dias de monitoramento e uma varredura inicial, os agentes retornaram ao imóvel com apoio de cães especialistas, que localizaram a substância escondida em fundos falsos de móveis. Investigações apontam que o material tinha como destino a Austrália, onde alcançaria valor elevado no mercado ilegal.
Além das drogas, a operação também apreendeu uma lancha blindada utilizada para o transporte pelo rio Solimões. A embarcação, equipada com fuzis, metralhadoras e compartimentos reforçados, foi considerada uma das mais potentes já interceptadas no estado. A polícia aponta que ela operava como “moto rápida” do tráfico, garantindo velocidade e proteção no deslocamento fluvial.
O secretário de Segurança Pública do Amazonas, Vinícius Almeida, destacou a dimensão do desafio enfrentado pelas forças de segurança no estado. “Estamos lidando com mais de 7 mil quilômetros de rios navegáveis e áreas de difícil acesso. A geografia impõe obstáculos adicionais ao combate ao tráfico”, afirmou.
Na ação, dois caseiros peruanos foram detidos. A defesa solicitou novo depoimento, mas não comentou o conteúdo apreendido. A proprietária da mansão, a peruana Liege Aurora Pinto da Cruz, de 74 anos, estava fora do país no momento da operação e se colocou à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A descoberta reforça o nível de sofisticação empregado por facções criminosas que atuam na Amazônia — desde esconderijos altamente planejados até embarcações adaptadas para suportar confrontos. O episódio também evidencia a necessidade de estratégias contínuas e integradas para conter o avanço do tráfico em uma das regiões mais complexas do país.