Indução cruel

Morte de estudante de medicina expõe suspeita de indução ao suicídio após aborto forçado

Dossiê com mensagens revela pressão psicológica, ameaças e manipulação por parte do namorado; laudo aponta morte por intoxicação por arsênio

A família busca justiça e responsabilização, destacando a importância de reconhecer sinais de violência emocional em relacionamentos - Imagem: Reprodução

Letícia Sales Publicado em 17/03/2026, às 09h05

A morte da estudante de medicina Carolina Andrade Zar, de 22 anos, ganhou novos contornos após a revelação de um dossiê elaborado pela própria jovem antes de morrer. O material reúne mensagens, relatos e provas que indicam um possível cenário de manipulação psicológica, coerção para aborto e indução ao suicídio por parte do namorado.

De acordo com o documento, Carolina foi pressionada desde o momento em que descobriu a gravidez. Nas conversas, o companheiro a acusava de tentar aplicar um “golpe” e afirmava que a gestação seria “a pior coisa” que poderia acontecer em sua vida. Em meio a xingamentos e ameaças, ele também sugeria atitudes extremas contra si mesmo, como forma de controle emocional.

As mensagens mostram ainda que o homem orientou a estudante a adquirir medicamentos ilegais para interromper a gravidez e insistiu para que ela apagasse provas das conversas. Em determinados momentos, alternava o comportamento agressivo com pedidos de desculpas e promessas de apoio, estratégia que, segundo especialistas, pode caracterizar abuso psicológico.

Mesmo desejando levar a gestação adiante, Carolina relatou no dossiê que considerou fingir o aborto para se afastar do namorado e criar o filho sozinha. O plano, no entanto, não se concretizou. O casal acabou indo a um hotel, onde ela ingeriu a medicação já com cerca de 12 semanas de gestação. Durante o processo, marcado por dores intensas, a jovem afirmou ter sido contida fisicamente pelo parceiro para que não interrompesse o procedimento.

Após o episódio, Carolina apresentou sinais de forte abalo emocional, incluindo episódios de automutilação. No dia 15 de maio de 2025, ela foi encontrada morta. Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado sob a hipótese de indução ao autoextermínio e prática de aborto provocado.

Um laudo do Instituto Médico Legal apontou que a causa da morte foi intoxicação aguda por arsênio, o que reforçou a necessidade de aprofundamento das investigações. A polícia agora apura as circunstâncias que levaram à ingestão da substância.

O pai da jovem, Fauez Zar, acompanha o caso e defende que a filha foi vítima de violência psicológica contínua. Segundo ele, semanas antes da morte, Carolina demonstrava arrependimento profundo pela interrupção da gravidez e expressava o desejo de “ter o filho de volta”.

Em uma das últimas mensagens, enviada à mãe do namorado, a estudante afirmou que não buscava vingança, mas que sua dor precisava ser reconhecida. No texto, ela também destacou que o ocorrido não poderia ser apagado “como uma conversa excluída”.

A família agora busca responsabilização e justiça. Para o pai, o caso evidencia a gravidade de relações abusivas e a necessidade de atenção a sinais de violência emocional, que podem ter consequências fatais.

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