Ex-policial militar afirma ter sido vítima de injustiça e critica investigação sobre um dos casos criminais mais marcantes do país
Letícia Sales Publicado em 25/05/2026, às 08h29
Condenado pelo assassinato da advogada Mércia Nakashima, o ex-policial militar e ex-advogado Mizael Bispo de Souza voltou ao centro das atenções após lançar um livro em que nega novamente ter cometido o crime ocorrido em 2010, na Grande São Paulo.
A obra, intitulada “Na Cova dos Leões – Uma história de luta, sofrimento, dor e injustiça! Nada está perdido”, foi escrita durante o período em que esteve preso e está disponível apenas em formato digital. No livro, Mizael questiona a investigação conduzida pela polícia, critica o Ministério Público e sustenta que foi condenado injustamente.
“Enquanto isso, o verdadeiro autor do crime estava ‘de boa’ por aí, dando risadas das trapalhadas da polícia, que, não sendo capaz de desvendar um crime, joga pra cima de alguém sem nenhuma prova”, escreveu.
O caso completou 16 anos no último sábado (23). Mércia desapareceu em 23 de maio de 2010 após sair da casa da avó, em Guarulhos. O carro da advogada foi encontrado semanas depois submerso em uma represa em Nazaré Paulista, no interior paulista. O corpo foi localizado no dia seguinte.
Segundo as investigações da Polícia Civil, Mércia teria sido atraída pelo ex-namorado, baleada e depois morreu afogada após o veículo ser lançado na água. A motivação do crime, de acordo com a apuração, seria a não aceitação do fim do relacionamento por parte de Mizael.
Uma das provas consideradas fundamentais pela investigação foi a presença de uma alga encontrada no sapato do ex-policial, compatível com o ambiente da represa onde o carro foi localizado.
Mizael se entregou à polícia em 2012, após passar um período foragido. Em 2013, foi condenado a mais de 20 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado. A pena posteriormente foi ampliada para mais de 22 anos. Desde 2023, ele cumpre o restante da condenação em regime aberto.
O vigia Evandro Bezerra da Silva, apontado como cúmplice no crime, também foi condenado. Apesar de ter confessado participação no caso em determinado momento da investigação, voltou atrás posteriormente e negou envolvimento.
Na publicação, Mizael altera os nomes de pessoas ligadas ao caso, alegando evitar possíveis processos. Mércia aparece como “Márcia”, enquanto o irmão da vítima, Márcio Nakashima, recebe outro nome fictício. Delegados, promotores e demais envolvidos também tiveram as identidades modificadas na narrativa.
Em outro trecho, o ex-policial sugere que outras pessoas próximas de Mércia não teriam sido investigadas. “Às vezes eu me pergunto: será que a Márcia estava relacionando-se com alguém e tal pessoa teria percebido que a mesma estava reaproximando-se de mim e preparou-lhe uma armadilha?”, escreveu.
Mizael também direciona críticas à cobertura da imprensa e à condução do caso pelas autoridades. “Este livro é dedicado ao público em geral e tem como objetivo esclarecer fatos não divulgados pela imprensa marrom e por aqueles que me acusaram e me julgaram”, afirmou.
Ele ainda reforça sua versão de inocência: “Nunca matei ninguém em minha vida, quiçá uma pessoa que eu tanto amei”.
O advogado de Mizael, Samir Haddad Júnior, comentou o lançamento da obra e defendeu a versão apresentada pelo cliente.
“Esse livro foi feito por Mizael Bispo sob a minha supervisão. O título eu que sugeri, inspirado em Daniel na cova dos leões, que lá foi jogado para morrer sem prova nenhuma. É um libelo de sua defesa e sua história que o Brasil todo acompanhou em tempo real no primeiro júri ao vivo da história do país. O caso O.J Simpson brasileiro sem nenhum exagero.”
O assassinato de Mércia Nakashima teve enorme repercussão nacional e marcou a cobertura policial e judicial do país, sendo acompanhado intensamente pela imprensa e pela opinião pública durante anos.