A maioria das agressões contra crianças e adolescentes acontece dentro de casa
Sabrina Oliveira Publicado em 24/10/2024, às 09h32
O Brasil registrou ao longo de 2023 uma média de 196 casos diários de violência física contra crianças e adolescentes de até 19 anos. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou os dados nesta quinta-feira (24) com base em notificações feitas por unidades de saúde de todo o país. A pesquisa revela que cerca de 80% das agressões envolvendo menores de 14 anos ocorreram dentro de suas próprias casas, indicando um problema que se esconde no ambiente familiar.
Dados do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (Sinan) mostram que a violência não discrimina faixa etária. Em 2023, mais de 3 mil casos foram registrados em bebês com menos de um ano de idade. Crianças de 5 a 9 anos estiveram envolvidas em 8.370 notificações, enquanto adolescentes de 15 a 19 anos foram as principais vítimas, totalizando 35.851 registros ao longo do ano.
Apesar do volume significativo de notificações, especialistas alertam que o cenário pode ser ainda mais grave devido à subnotificação. A SBP ressalta que muitos casos, especialmente em áreas remotas ou com acesso limitado aos serviços de saúde, não são reportados, dificultando uma compreensão precisa da dimensão do problema.
O Norte do Brasil é uma das regiões mais afetadas pela falta de notificações. Segundo a SBP, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde e a ausência de mecanismos eficazes de denúncia tornam essa região particularmente vulnerável à subnotificação. Por outro lado, o Sudeste concentra a maior parte dos registros, reflexo de uma maior densidade populacional e sistemas de saúde mais estruturados.
Em termos absolutos, São Paulo lidera com 17.278 notificações de violência física contra menores, representando quase 50 casos por dia. Minas Gerais aparece em segundo lugar com 8.598 registros, seguido pelo Rio de Janeiro com 7.634. No Sul, o Paraná é destaque, com 7.266 notificações, das quais um terço envolveu crianças menores de 10 anos.
A Bahia lidera os números no Nordeste, com 3.496 casos, e no Centro-Oeste, Goiás aparece em primeiro, com 2.533 ocorrências. No Norte, o Pará teve o maior número de notificações, somando 2.357.
A SBP alerta que a violência intrafamiliar é uma doença silenciosa e crônica. Em muitos casos, ela é transmitida de geração em geração e causa não apenas danos físicos, mas também a destruição dos laços afetivos. "A violência é uma doença que exige diagnóstico e tratamento, e o rompimento desse ciclo só é possível com denúncias e proteção às vítimas", declarou a entidade.
A legislação brasileira exige que qualquer suspeita ou confirmação de violência contra menores seja notificada às autoridades, incluindo o conselho tutelar e, em casos mais graves, a polícia e o Ministério Público. No entanto, os especialistas afirmam que a denúncia formal ainda é vista como um obstáculo por muitas famílias, que preferem o silêncio à exposição.
A SBP anunciou que irá lançar uma nova campanha de conscientização durante o 41º Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado em Florianópolis. O objetivo é capacitar profissionais de saúde para identificar precocemente sinais de violência e melhorar a comunicação entre serviços de atendimento e as autoridades responsáveis.