Morte em creche

Polícia investiga demora no socorro após bebê morrer em creche no Brás

Menino de 1 ano e 4 meses ficou com a cabeça presa entre uma barra de ferro e um espelho; Polícia Civil investiga cinco profissionais por homicídio culposo

Secretarias de Segurança e Educação lamentam a morte e afirmam que investigações estão em andamento - Imagem: Reprodução

Letícia Sales Publicado em 23/07/2026, às 08h33

As imagens das câmeras de segurança da Creche Luz do Brás, na região central de São Paulo, revelam que o bebê Abdoulaye Dieng, de 1 ano e 4 meses, permaneceu preso por cerca de seis minutos antes de ser socorrido por funcionárias da unidade. A criança morreu após prender a cabeça entre uma barra de ferro e um espelho durante uma atividade recreativa, na manhã de quarta-feira (22).

De acordo com a investigação da Polícia Civil, Abdoulaye estava em uma sala multiuso com outras crianças quando deitou no chão e colocou a cabeça no espaço entre a estrutura metálica que protege o espelho e a parede. As gravações mostram que o menino tentou se soltar sozinho até que monitoras perceberam a situação e o retiraram do local.

A Polícia Militar foi acionada por volta das 9h20, após ser abordada por funcionárias da creche que deixavam a unidade carregando a criança no colo. O bebê foi levado à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Mooca, onde recebeu atendimento médico, mas não resistiu.

O caso foi registrado como homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e é investigado pelo 8º Distrito Policial (Brás). O boletim de ocorrência cita cinco profissionais da creche entre os investigados, incluindo coordenadoras, diretora e pedagogas. Até o momento, ninguém foi preso.

O pai da criança, o vendedor senegalês Ibrahima Dieng, que vive no Brasil há oito anos, contou que deixou o filho na creche por volta das 7h30 e recebeu uma ligação cerca de uma hora e meia depois informando sobre o acidente.

"Hoje foi lá na escola e depois ele fala ligar (...) chegou, ele fala 'cadê criança?', esperar e depois ele morreu", disse.

Emocionado, ele afirmou que a família enfrenta um momento de profunda dor.

"Tem que chorar, chorar muito assim, é triste."

Segundo Ibrahima, a mãe do menino também passou mal ao receber a notícia.

"Chora muito... é triste, muito. Vai ser muito difícil recuperar."

O advogado da família, Erson de Oliveira, afirmou que as imagens reforçam a suspeita de falta de supervisão no momento do acidente e questionou a demora no atendimento.

"O que foi relatado para a gente é que a criança estava brincando sem supervisão. Ela prendeu a cabeça num ferro que prende um espelho e se asfixiou sem socorro, sem ajuda de ninguém, até falecer", disse.

Para ele, o tempo em que o bebê permaneceu preso demonstra falha na vigilância da unidade.

"Da mesma forma que colocou a cabeça, se tivesse alguém para levantar o corpinho conseguiria tirar facilmente. Não houve esse auxílio."

A defesa também questiona a decisão da creche de levar a criança diretamente à UPA, em vez de acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou o Corpo de Bombeiros.

A Polícia Civil preservou o local para a realização da perícia do Instituto de Criminalística e solicitou exame necroscópico ao Instituto Médico Legal (IML), que deverá confirmar a causa da morte.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que "policiais militares que realizavam patrulhamento pela região foram abordados por funcionários da creche, que já estavam socorrendo a criança à UPA Mooca".

Já a Secretaria Municipal de Educação (SME) lamentou a morte do menino, manifestou solidariedade à família e afirmou que equipes da Diretoria Regional de Educação e do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem (NAAPA) prestam suporte aos familiares.

"As circunstâncias da ocorrência no CEI parceiro Luz do Brás estão sendo rigorosamente apuradas pelos órgãos competentes. A secretaria colabora integralmente com as investigações e adotará todas as providências cabíveis após a conclusão da apuração dos fatos."

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) também informou que "A criança deu entrada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Mooca na manhã desta quarta-feira (22), onde recebeu atendimento da equipe médica. Apesar de todos os esforços assistenciais, o óbito foi confirmado na unidade."

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