A investigação aponta para erros na condução do caso e um histórico de violência do agressor, complicando ainda mais a situação
Marina Milani Publicado em 05/12/2025, às 16h30
O caso que terminou com um policial militar da Força Tática baleado, na noite de quarta-feira, 4, em Mauá, ganhou novos contornos após a divulgação do Boletim de Ocorrência e informações obtidas por uma segunda fonte exclusiva do Diário. O episódio, que começou como uma suposta tentativa de roubo relatada pelo filho de um Guarda Civil Municipal, agora aponta para um enredo mais grave, marcado por contradições, disputa de autoridade e erros sucessivos na condução da ocorrência.
Segundo o BO registrado no 1º DP de Mauá, a Guarda Civil Municipal foi acionada com a informação de que o filho de um agente teria sido vítima de uma tentativa de assalto. Na versão repassada inicialmente, o suposto criminoso teria invadido o carro do jovem, sido desarmado e alvejado em legítima defesa.
Ao chegar à Rua Antônio Francine, no Jardim São José, os guardas encontraram o homem baleado no chão e outro, identificado como Sandro Moreira Rodrigues, segurando a pistola Glock calibre .40 utilizada no disparo. A arma foi entregue à viatura da GCM. Só depois se confirmou que o ferido era um policial militar à paisana, pertencente à Força Tática.
Versão que desmorona
De acordo com informações obtidas pelo Diário com uma segunda fonte que conhece a vítima, o PM teria sido acionado por moradores porque o filho do GCM estava agredindo a namorada dentro do carro. Ao tentar intervir, o policial teria sido atacado e desarmado. Logo depois, acabou baleado com sua própria arma.
Sabendo da gravidade do que ocorrera, o agressor, que tem histórico criminal por violência doméstica, teria inventado na hora uma narrativa de tentativa de roubo para justificar o disparo. Essa versão foi a que a GCM encontrou ao chegar, acreditou e registrou inicialmente.
Confronto entre GCM e PM
O Boletim de Ocorrência confirma o clima de hostilidade entre as corporações. Ao identificar que a pistola era de uso restrito da PM, os militares tentaram assumir a custódia do armamento, mas a GCM resistiu. O documento registra empurra empurra, queda da GCM Lígia de Lima e do PM Clodoaldo Rodrigues Fontes, além de um confronto físico entre equipes.
A segunda fonte do Diário afirma que os guardas não socorreram o policial ferido e ainda teriam tentado impedir que outros PMs o fizessem, comportamento classificado por ela como total falta de profissionalismo. O PM, gravemente ferido, foi levado ao Hospital Nardini, onde passou por procedimento cirúrgico e permanece sem condições de prestar depoimento.
Depoimentos sem clareza e investigação em aberto
O agressor, Sandro Rodrigues, disse à Polícia Civil que retornava de uma adega com a namorada quando o PM teria se aproximado armado, entrando no carro sem anunciar nada. Disse que lutou pela sobrevivência após ouvir a frase vou te matar.
A namorada confirmou apenas o início da abordagem, afirmando que entrou em pânico e correu, não viu os disparos. Já a GCM sustentou que apenas tentou preservar a cena até a chegada da Polícia Científica.
O delegado Octávio Trovilho, que assina o BO, classificou a situação como de alta complexidade e optou por não prender nenhum dos envolvidos em flagrante até que a perícia esclareça o ocorrido. A investigação segue registrada como lesão corporal, podendo ser reclassificada.
Bastidores
De acordo com a segunda fonte exclusiva ouvida pelo Diário, o policial baleado é casado e tem esposa grávida. Ele segue internado, entubado, e o estado de saúde é considerado delicado.
Entre policiais militares, o clima é de revolta. A postura da GCM é vista como precipitada e baseada em uma versão imediatamente desmentida pelos elementos posteriores.
Para especialistas, o caso expõe mais um capítulo da já conhecida tensão entre PM e GCM no ABC, tensão que nesta noite saiu do campo institucional e se tornou uma ameaça real à vida de um policial em serviço, mesmo fora do horário.
O Diário seguirá acompanhando o caso.