Simulação de Sequestro

Motorista que parou o Rodoanel com falsa ameaça de bomba já tinha histórico de expulsão da PM

Farsa do sequestro mobilizou operações especiais, provocou caos no trânsito e levou à queda da versão apresentada por Dener Laurito dos Santos

Dener Laurito dos Santos, ex-PM, cria farsa que paralisou o Rodoanel por horas, gerando congestionamento e mobilização policial - Imagem: Reprodução/G1

Gabriela Nogueira Publicado em 20/11/2025, às 11h24

O caso que paralisou o Rodoanel Mário Covas por horas e mobilizou uma operação digna de cenário de emergência começou muito antes da manhã em que uma carreta foi deixada atravessada na pista. A história de Dener Laurito dos Santos, motorista que admitiu ter inventado um sequestro e criado um simulacro de bomba, ganhou novos contornos quando veio à tona que ele havia sido desligado da Polícia Militar de São Paulo em 2006 por conduta considerada desonrosa. O passado militar deixou marcas, mas seria quase duas décadas depois que seu nome voltaria ao centro de um episódio que chamou a atenção de todo o estado.

Antes do bloqueio

Em meados de novembro, Laurito acionou o Centro de Controle Operacional relatando um sequestro. Segundo ele, três homens o teriam rendido, preso um artefato explosivo ao seu corpo e obrigado a bloquear a pista com a carreta. O relato acionou protocolos de alto risco e colocou equipes especializadas em alerta, incluindo o GATE e o Esquadrão Antibombas.

A manhã do dia 12 de novembro

O trecho do Rodoanel, na altura do km 44, foi totalmente interditado logo no início da manhã. A imagem da carreta atravessada e de policiais trabalhando para entender a ameaça rapidamente se espalhou. Drones foram usados para avaliar o suposto explosivo enquanto o motorista era mantido sob observação dentro do veículo, de onde só saiu por volta das 9h30, quando foi levado para atendimento médico.

A situação causou um congestionamento que chegou a cerca de 40 quilômetros e afetou milhares de motoristas que cruzavam uma das principais ligações viárias da Grande São Paulo. Pouco depois, técnicos confirmaram que o artefato não passava de um simulacro.

As primeiras suspeitas

Com o motorista seguro e o trânsito sendo liberado, começou a fase de reconstituição do que realmente havia acontecido. Gravações, telefonemas e depoimentos foram mapeados, e logo surgiram dúvidas sobre o relato inicial. Alguns detalhes não batiam com as imagens, e versões apresentadas pelo motorista divergiam de informações colhidas pela investigação.

Além disso, um fato chamou atenção: Laurito também havia dito que uma pedra fora atirada contra o caminhão durante o suposto sequestro. A apuração mostrou que ele mesmo teria lançado o objeto, que acabou apreendido no dia seguinte.

A confissão

Pressionado pelas contradições, Laurito admitiu que não havia sequestro algum. Contou que ele mesmo produziu os simulacros de bomba e que inventou toda a história. A sequência de mentiras levou a Polícia Civil a concluir que se tratava de uma tentativa deliberada de comunicar um crime inexistente, o que motivou a abertura de um indiciamento por falsa comunicação.

Histórico que voltou à tona

Com o caso já em repercussão, veio à luz que o motorista havia sido soldado da Polícia Militar e que foi expulso da corporação há quase vinte anos. Segundo documentos publicados no Diário Oficial, o desligamento ocorreu por atos considerados graves pelo regulamento disciplinar, o que reacendeu questionamentos sobre sua conduta ao longo dos anos.

O andamento das investigações

Após a confissão, o caso passou a ser conduzido pela Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes de Taboão da Serra, que ainda busca esclarecer todos os pontos do episódio, incluindo o motivo que levou o motorista a arquitetar uma farsa de tamanha proporção.

A polícia reforça que comunicar falsamente um crime é uma infração prevista no Código Penal e que, embora seja de menor potencial ofensivo, mobiliza equipes, gera gastos públicos e provoca transtornos significativos. No caso do Rodoanel, mais de cinco horas de interdição e um congestionamento quilométrico foram consequências diretas de um falso relato que poderia ter sido evitado.

A linha do tempo mostra como a história que começou com uma simples denúncia evoluiu para um dos episódios mais inusitados do ano nas estradas paulistas, deixando perguntas que ainda aguardam respostas.

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