Economia

Mercado cooperativo chega a São Paulo com proposta inédita de consumo compartilhado

Para comprar na Gomo Coop, clientes se tornam cooperantes e colaboram com três horas de trabalho por mês

Gomo Coop, mercado cooperativo sem chefia tradicional, que iniciou as atividades em fase de testes no fim de 2025 - Imagem: Reprodução/G1

Gabriela Nogueira Publicado em 06/01/2026, às 08h56

São Paulo passou a contar com um novo formato de mercado que foge do padrão tradicional do varejo alimentar. Localizada no Centro da capital, a Gomo Coop abriu as portas como a primeira cooperativa de consumo participativa da cidade, onde não há patrão e quem compra também é dono e colaborador do espaço.

Para fazer compras no local, é preciso se tornar cooperante. A adesão acontece por meio da aquisição de uma cota de R$ 100, que garante participação nas decisões da cooperativa e acesso aos produtos. Além disso, cada membro se compromete a dedicar três horas mensais a alguma atividade necessária para o funcionamento do mercado, como atendimento no caixa, reposição de mercadorias, organização do estoque, limpeza ou apoio administrativo.

Na prática, o modelo transforma a relação entre consumidor e mercado. Todos os cooperantes têm o mesmo peso nas decisões, independentemente do número de cotas adquiridas, e participam diretamente da rotina do espaço. A proposta é reduzir custos operacionais, eliminar hierarquias tradicionais e criar um ambiente baseado na colaboração.

A iniciativa também surge como resposta à forte concentração do setor supermercadista no Brasil, onde poucas grandes empresas dominam boa parte das prateleiras. Ao priorizar alimentos orgânicos, agroecológicos e produtos de pequenos produtores, muitos deles da própria cidade, a Gomo Coop busca ampliar a diversidade de oferta e fortalecer cadeias locais de produção.

Inspirado em experiências internacionais, o projeto tem como principal referência a Park Slope Food Coop, de Nova York, que funciona há mais de cinco décadas com base no trabalho obrigatório dos cooperantes. Modelos semelhantes também se espalharam pela Europa nos últimos anos, especialmente após a criação de uma cooperativa nos moldes nova-iorquinos em Paris.

A ideia de trazer esse formato para São Paulo começou a ganhar corpo em 2021, durante a pandemia, a partir do encontro de pessoas interessadas em cooperativismo e consumo consciente. Desde então, o projeto avançou com financiamento coletivo, compra de cotas e empréstimos solidários feitos pelos próprios cooperantes fundadores.

Hoje, a Gomo Coop reúne cerca de 700 participantes. O capital inicial foi formado pelas cotas e por aportes sem fins lucrativos, com previsão de devolução apenas após alguns anos de funcionamento, corrigidos pela inflação. A lógica é garantir sustentabilidade financeira sem gerar lucro individual, já que o retorno esperado é coletivo, na forma de preços mais justos e maior controle sobre o que é vendido e consumido.

As tarefas dentro do mercado são distribuídas de acordo com a disponibilidade e o interesse de cada cooperante. A proposta é que o trabalho seja acessível, organizado em equipe e, sempre que possível, alinhado às habilidades de quem participa. No futuro, atividades fora do balcão também podem contar como horas de colaboração, como oficinas, aulas ou ações educativas voltadas à comunidade.

Embora a expectativa seja oferecer preços competitivos, os idealizadores ressaltam que o sucesso do modelo depende do engajamento dos cooperantes e do crescimento da base de participantes. Quanto maior o volume de compras concentrado no mercado, maior tende a ser o poder de negociação com fornecedores.

Ao apostar no consumo coletivo e na participação direta dos clientes, a Gomo Coop se apresenta como uma alternativa ao varejo tradicional e como um experimento urbano que resgata princípios históricos do cooperativismo, adaptados à realidade de uma metrópole como São Paulo.

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