Investigação liga PMs ao PCC

Gaeco mira esquema financeiro do PCC que cita oficiais de alta patente da Polícia Militar

Operação apreendeu planilhas e áudios que apontam repasses em dinheiro e proximidade de cúpula da PM paulista com banco clandestino do crime organizado

Material coletado será enviado à Corregedoria da PM para apuração interna, mas policiais mencionados não foram denunciados - Imagem: Divulgação/GESP/Secom

Letícia Sales Publicado em 22/07/2026, às 11h34

Uma operação deflagrada nesta terça-feira (21) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) lançou luz sobre as conexões entre o crime organizado e agentes da segurança pública em São Paulo. A investigação busca desarticular uma estrutura financeira clandestina voltada para a movimentação de recursos ilícitos de criminosos e do Primeiro Comando da Capital (PCC).

A apuração teve acesso a planilhas contábeis e registros em áudio que evidenciam a proximidade de suspeitos com oficiais da Polícia Militar de São Paulo. Os documentos indicam o repasse de valores em espécie, incluindo quantias direcionadas a oficiais de alto escalão.

Entre os nomes citados no acervo apreendido está o do coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante do batalhão de Rota, do Comando de Policiamento de Choque e ex-comandante-geral da Polícia Militar paulista. O oficial deixou o posto máximo da corporação em abril de 2026 e pediu passagem para a reserva no período em que a Corregedoria apurava a atuação de policiais na segurança privada de dirigentes da Transwolff — concessionária de transporte público apontada pelo Ministério Público como controlada pela facção.

Outro nome mencionado no material é o do coronel Luiz Carlos Pereira Martins, que integrava um grupo de mensagens instantâneas com os investigados e teria se oferecido para intermediar contatos. As planilhas trazem ainda referências a um coronel identificado como "Patrício", ao lado de uma anotação de pagamento de R$ 1 mil. Em uma das gravações, há também menção à captação de R$ 100 mil que teriam como destino policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), sem especificação de nomes.

Apesar das citações nos registros do banco clandestino, os policiais mencionados não foram alvos de mandados na operação, não foram denunciados e não figuram como acusados formais no processo. Todo o material coletado será remetido à Corregedoria da Polícia Militar para apuração interna.

Alertas prévios sobre vazamentos

As citações ao nome do coronel Coutinho ocorrem meses após vir a público o teor do depoimento prestado em março pelo promotor Lincoln Gakiya à Corregedoria da PM, quando o oficial ainda chefiava a corporação. Com mais de duas décadas de atuação no combate ao PCC, Gakiya relatou suspeitas de vazamento de operações sigilosas conduzidas com o apoio da Rota no período em que Coutinho comandava a unidade de elite.

O promotor relembrou que, durante a Operação Sharks, em 2020, informações sigilosas vazaram para a cúpula da facção antes do cumprimento das ordens judiciais, o que permitiu a fuga de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, apontado como a principal liderança do grupo em liberdade à época. Gakiya afirmou ainda que um encontro entre investigadores, policiais da Rota e um informante teria sido gravado clandestinamente e vendido a Tuta por R$ 5 milhões.

Segundo o promotor, o próprio Coutinho foi alertado formalmente sobre a suspeita de que os vazamentos partiam de agentes da unidade e sobre a prática de "bicos" por parte de policiais para empresas de ônibus ligadas à organização criminosa. Um ofício do Ministério Público Militar indicou que não há registros de que medidas disciplinares ou investigativas tenham sido adotadas pelo ex-comandante após os avisos.

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