Apesar do acordo, novos ataques russos em Odessa ressaltam a fragilidade da situação e o impacto contínuo da guerra na região
Marina Milani Publicado em 01/05/2025, às 19h12
Na última quarta-feira (30), os Estados Unidos e a Ucrânia oficializaram um acordo em Washington que cria um fundo de investimento destinado à reconstrução do país devastado pela guerra. O acordo também concede à administração do ex-presidente Donald Trump acesso aos recursos naturais da Ucrânia.
Após intensas negociações, o governo ucraniano afirmou ter garantido sua plena soberania sobre suas terras raras, que são cruciais para o desenvolvimento de novas tecnologias e que ainda permanecem em grande parte inexploradas. Trump havia condicionado o apoio americano a esses direitos sobre a riqueza mineral ucraniana, como uma forma de compensação pelos bilhões de dólares em armamentos fornecidos durante a administração do ex-presidente Joe Biden, após a invasão russa que teve início há mais de três anos.
Simultaneamente ao anúncio do acordo, diversas negociações diplomáticas estão sendo conduzidas na tentativa de encontrar uma resolução para o conflito armado. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, declarou que a assinatura deste acordo reflete "o compromisso mútuo em prol da paz e da prosperidade" entre os dois países.
Bessent enfatizou que o acordo sinaliza à Rússia a determinação da administração Trump em apoiar um processo de paz que vise uma Ucrânia "livre, soberana e próspera" no longo prazo. Ele também ressaltou que nenhum Estado ou indivíduo que tenha contribuído para a máquina de guerra russa poderá tirar proveito da reconstrução ucraniana.
No comunicado divulgado pelo Tesouro, foi feita menção à "invasão em grande escala" da Ucrânia por parte da Rússia, uma expressão que contrasta com a terminologia normalmente utilizada pela administração Trump, que frequentemente se refere ao evento como um "conflito", atribuindo parte da responsabilidade à própria Kiev. O primeiro-ministro ucraniano, Denis Shmigal, avaliou o acordo como "bom, justo e benéfico" em declaração à televisão nacional.
Ainda segundo Shmigal, tanto os Estados Unidos quanto a Ucrânia terão igualdade na gestão do Fundo de Investimento para a Reconstrução, garantindo a cada parte 50% dos direitos de voto. Ele reiterou que o país manterá o controle total sobre seu subsolo, infraestrutura e recursos naturais. Além disso, assegurou que não haverá exigências para que a Ucrânia pague qualquer "dívida" relacionada aos bilhões de dólares em apoio militar recebido desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022. Os lucros gerados pelo fundo serão reinvestidos exclusivamente na Ucrânia.
A ministra da Economia ucraniana, Yulia Sviridenko, anunciou via Facebook que o novo acordo financiará projetos relacionados a minerais, petróleo e gás, além de obras de infraestrutura. Contudo, logo após a assinatura do pacto, novos ataques com drones por parte das forças russas resultaram na morte de ao menos duas pessoas e deixaram 15 feridos em Odessa. Explosões foram reportadas em Sumi e alertas de ataque aéreo foram acionados em várias regiões, incluindo Kiev e Kharkiv.
Em relação às riquezas minerais ucranianas, Trump inicialmente reivindicou US$ 500 bilhões como compensação — um valor aproximadamente quatro vezes maior do que a contribuição americana à Ucrânia desde o início do conflito. Embora tenha se negado a oferecer garantias de segurança ao país ou apoiar sua adesão à Otan, Trump afirmou recentemente que a presença dos EUA no território ucraniano traria benefícios substanciais. "Isto manterá muitos atores nocivos fora do país ou ao menos fora das áreas onde estamos operando", declarou durante uma reunião com seus conselheiros.
Por outro lado, Trump tem pressionado por um acordo que envolva concessões territoriais por parte da Ucrânia nas áreas ocupadas pela Rússia. Moscou já rejeitou propostas apoiadas pelos EUA para um cessar-fogo prolongado. O presidente ucraniano Volodimir Zelensky descartou formalmente qualquer cedência da Crimeia à Rússia — península anexada em 2014. Em conversa com Zelensky no Vaticano, Trump incentivou-o a considerar o acordo proposto sob a justificativa de que "a Rússia é muito maior e mais forte".
Com cerca de 5% das reservas mundiais de recursos minerais e terras raras segundo diversas estimativas, muitos dos depósitos estratégicos ainda estão sob controle russo. A Rússia ocupa atualmente cerca de 20% do território ucraniano após mais de três anos de conflitos intensos que ceifaram dezenas de milhares de vidas, incluindo civis.