Brasil é o maior prejudicado pelo novo tarifaço de Trump, aponta Financial Times

Análise mostra que a tarifa efetiva média sobre produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos deve subir de 11% para 17,7%, enquanto países europeus aparecem entre os beneficiados pela reformulação da política comercial norte-americana.

Segundo o Financial Times, o Brasil é o país mais prejudicado pelo novo modelo, com uma tarifa efetiva média estimada em 17,7% - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Silva Publicado em 24/07/2026, às 13h12

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O Brasil aparece como o país mais prejudicado pela nova rodada de tarifas comerciais impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo análise publicada nesta sexta-feira, 24 de julho, pelo jornal britânico Financial Times, a tarifa efetiva média incidente sobre produtos brasileiros deve saltar de 11% para 17,7%.

O cálculo foi elaborado pelo Global Trade Alert, organização independente especializada no acompanhamento de medidas comerciais. A taxa de 17,7% não representa uma cobrança única aplicada igualmente a todos os produtos brasileiros. Trata-se de uma média ponderada que considera a composição das exportações, as sobretaxas em vigor e os produtos que receberam isenção.

O avanço ocorre porque o Brasil passa a enfrentar duas frentes tarifárias distintas. A primeira é uma tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos a uma parcela relevante dos produtos brasileiros. A medida foi anunciada em 15 de julho e começou a valer no dia 22. A segunda é uma nova tarifa de 12,5%, criada dentro de uma investigação norte-americana relacionada ao combate à entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

A tarifa de 25% foi adotada após uma investigação específica sobre políticas brasileiras envolvendo comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, combate à corrupção, acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro, tarifas preferenciais e desmatamento ilegal. O governo dos Estados Unidos afirma que determinadas práticas brasileiras prejudicam empresas e trabalhadores norte-americanos.

Já a cobrança de 12,5% integra uma medida mais ampla contra 60 parceiros comerciais dos Estados Unidos. A Casa Branca acusa esses países de não adotarem ou não aplicarem de maneira considerada efetiva mecanismos para impedir a importação de produtos fabricados com trabalho forçado. As economias atingidas representam cerca de 99,4% das importações norte-americanas.

Países que assumiram compromissos ou adotaram algum tipo de proibição receberam uma tarifa de 10%. O Brasil foi incluído no grupo sujeito à alíquota de 12,5%. Determinadas matérias primas, mercadorias consideradas essenciais à economia norte-americana e produtos que não podem ser fabricados em quantidade suficiente nos Estados Unidos ficaram fora da cobrança.

Europa avança enquanto Brasil perde competitividade
A reorganização tarifária produziu resultados diferentes entre os parceiros comerciais dos Estados Unidos. De acordo com o Financial Times, países como França, Reino Unido, Alemanha e Espanha tiveram pequenas reduções em suas tarifas efetivas.

Bélgica, Espanha e Itália aparecem entre os maiores beneficiados, com quedas estimadas entre 1 e 1,5 ponto percentual. O resultado está relacionado à composição das exportações europeias, às exceções concedidas e à decisão de não acumular determinadas tarifas sobre produtos da União Europeia.

Na direção oposta, países da Ásia e da América Latina registraram aumento da pressão tarifária. China, Vietnã, Indonésia, Chile e Colômbia tiveram elevações mais moderadas, entre 0,5 e 1 ponto percentual. O salto brasileiro, de 6,7 pontos percentuais, foi o mais expressivo entre as economias analisadas.

Nova estratégia após derrota na Suprema Corte
O novo modelo tarifário também representa uma tentativa do governo Trump de tornar sua política comercial juridicamente mais resistente.

Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou tarifas que haviam sido adotadas com base em uma legislação de emergência econômica. Após a derrota, o governo estabeleceu temporariamente uma tarifa global de 10%, com prazo máximo de 150 dias.

Com o encerramento dessa cobrança provisória, a Casa Branca passou a utilizar a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O instrumento permite ao governo norte-americano aplicar tarifas contra países acusados de manter práticas consideradas injustificáveis, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.

A estratégia adotada cria determinações separadas para cada uma das 60 economias. Na prática, uma eventual derrota judicial envolvendo a tarifa de um país não derrubaria automaticamente todas as demais cobranças.

Mesmo com a reformulação, a tarifa efetiva média cobrada pelos Estados Unidos permanece próxima de 10,8%. O índice é semelhante ao observado durante a cobrança temporária, mas fica abaixo dos 15,8% registrados quando a Suprema Corte invalidou o pacote tarifário anterior.

Governo brasileiro contesta medidas
O governo brasileiro rejeita as justificativas apresentadas por Washington e afirma que as tarifas são unilaterais e injustificadas. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Brasil e Estados Unidos realizaram mais de 30 reuniões desde julho de 2025 na tentativa de construir uma solução negociada.

O Executivo brasileiro também argumenta que os Estados Unidos acumularam um superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. O dado é utilizado pelo governo para contestar a alegação de que a relação bilateral seria prejudicial à economia norte-americana.

Após o anúncio da tarifa relacionada ao trabalho forçado, o Brasil classificou a medida como arbitrária e afirmou que pretende acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, além de levar o caso à Organização Mundial do Comércio.

Possíveis impactos para as empresas brasileiras
O aumento da tarifa efetiva pode reduzir a competitividade de produtos brasileiros no mercado norte-americano, especialmente em segmentos nos quais compradores dos Estados Unidos conseguem substituir fornecedores com maior facilidade.

Exportadores podem enfrentar pressão para reduzir preços, renegociar contratos, absorver parte da tarifa ou buscar mercados alternativos. Empresas norte-americanas que importam mercadorias brasileiras também podem repassar o custo adicional aos consumidores ou aceitar margens menores.

Apesar das exceções concedidas a produtos considerados estratégicos, a combinação de tarifas amplia a incerteza sobre investimentos, embarques e contratos de longo prazo. O resultado coloca o Brasil em posição mais desfavorável que outros grandes parceiros comerciais dos Estados Unidos e aumenta a pressão por uma saída diplomática.

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