Cresce o número de meninas que são usadas como peças-chave em esquemas de violência e tráfico; movimento pressiona o governo a rever legislação penal no país
Lívia Gennari Publicado em 15/09/2025, às 15h51
Na Suécia, gangues criminosas têm aliciado cada vez mais adolescentes para executar crimes violentos, muitas vezes como “assassinas de aluguel”. A promotora de Estocolmo, Ida Arnell, afirma que apenas no último ano, cerca de 280 meninas entre 15 e 17 anos foram acusadas de homicídio, homicídio culposo e outros delitos graves. O número preocupa as autoridades, que ainda não conseguem dimensionar quantas dessas jovens atuam de fato a serviço do crime organizado.
Recrutamento virtual
A criminalidade das gangues suecas é complexa e organizada. Líderes operam do exterior e usam intermediários que recrutam adolescentes através de aplicativos criptografados como Telegram, Discord e Signal.
“As meninas precisam mostrar que são ainda mais determinadas e fortes do que os meninos para conseguir o ‘emprego’”, afirma Arnell.
A promotora citou um caso, em que uma garota de 15 anos foi recrutada para atirar na cabeça de alguém. Ela escolheu o alvo mais letal e, junto a um cúmplice de 17 anos que puxou o gatilho, deixou a vítima gravemente ferida no pescoço, abdome e pernas.
“Um número crescente de meninas oferece serviços a mafiosos por meio de mensagens criptografadas”, completou.
Perfil e impacto social
Conhecida por baixos índices de criminalidade, a Suécia enfrenta gangues que atuam há cerca de 15 anos e se infiltram em educação, Justiça, política e centros de detenção juvenil. Além do tráfico de drogas e armas, essas organizações se envolvem em tráfico de pessoas e fraudes de benefícios sociais.
A maioria das adolescentes envolvidas com o crime organizado sueco, apresenta histórico de dependência química ou traumas, incluindo abuso sexual. De acordo com uma pesquisa do grupo Ksan (associação sueca que reúne organizações dedicadas ao combate ao abuso de drogas e álcool entre mulheres), 66% das meninas que cometem crimes relacionados a drogas já sofreram violência sexual.
“Elas praticam crimes e, ao mesmo tempo, são vítimas, por serem profundamente vulneráveis”, explica a associação.
O caso de Natalie Klockars, 28 anos, ilustra essa realidade: filha de mãe viciada em drogas e pai preso, iniciou no tráfico aos 19 anos, recrutou outras meninas e construiu um negócio lucrativo. Após ameaças graves durante a gravidez, decidiu abandonar o crime ao dar à luz sua filha.
O que diz o governo sueco?
Em resposta ao recrutamento de menores como assassinas de aluguel, o governo anunciou planos de reduzir a maioridade penal. O primeiro-ministro Ulf Kristersson afirmou que a idade de responsabilidade criminal poderá ser fixada em 14 anos para crimes graves, embora ainda não haja definição final sobre a medida.