COLUNA

O peso da farda fora do quartel

O peso da farda fora do quartel - imagem: Divulgação / Polícia Militar

Marcelo Emerson Publicado em 12/03/2026, às 10h11

Ingressar na Polícia Militar é, para muitos jovens, a realização de um ideal de vida. A farda representa disciplina, serviço à sociedade e o compromisso de enfrentar o crime. Mas há um aspecto que nem sempre recebe a devida atenção nos início da carreira profissional: a profunda mudança de postura que a profissão exige, não só dentro dos quartéis e no horário de expediente, mas também fora do serviço.

Ser policial não é apenas uma função exercida durante o turno. É uma condição permanente. Como nos ensina o Veterano de ROTA Amaury Prokisch: “O Policial Militar não deixa de ser Policial Militar quando volta para a sua casa, para a sua família, nos momentos de folga”.

A partir do momento em que veste a farda, o jovem policial passa a ocupar um lugar específico na dinâmica social, sobretudo em um país onde o crime organizado observa, identifica e escolhe seus alvos com frieza.

Por isso, a experiência dos veteranos costuma trazer alertas que deveriam ser ouvidos com atenção. O Sargento e Advogado Dr. Giancarlo Corazza resume bem uma dessas lições fundamentais ao falar sobre percepção de risco: “Visão situacional. Tem lugar que não é para o Policial Militar frequentar. Não pode entrar pra tomar cachaça em adega ao lado de ‘biqueira (ponto de tráfico de drogas)”.

A frase é direta, mas carrega uma realidade dura. Em muitas regiões, a simples presença de um policial fora de serviço pode despertar hostilidade. Ambientes aparentemente comuns podem estar inseridos em territórios dominados pelo crime. Ignorar isso é ignorar um risco real.

O Sargento Cavalcante reforça a mesma ideia ao tratar da mudança de condição social que acompanha a profissão: “Vocês têm que peneirar o local onde vocês vão. Policial Militar, Civil o Guarda Civil não são melhores do que ninguém, mas são diferentes. É o alvo que vocês se tornam. Vocês vão estar com um grande ‘Xis’ nas costas onde quer que vocês estejam, qualquer lugar”.

Não se trata de arrogância nem de isolamento social. Trata-se de consciência. O policial passa a representar o Estado diante de quem vive à margem da lei. E isso, inevitavelmente, altera a forma como ele será visto em determinados ambientes.

Essa mudança também atinge o círculo de convivência. O mesmo Sargento Corazza alerta: “E atenção com os amigos também. Amigos de atitudes ‘duvidosas’, já não ‘cabem’ mais nas suas vidas. Porque um amigo ‘errado’ pode te levar para a morte”.

Vale ouvir o que os Veteranos de ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, unidade de elite da Polícia Militar de São Paulo) têm para ensinar aos mais jovens.

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