A obstrução na Câmara reflete as tensões ideológicas entre os vereadores de São Paulo
Fábio Behrend Publicado em 29/11/2024, às 09h35
Lá se vão três semanas sem nenhuma votação de projetos de vereadores na Câmara Municipal de São Paulo. E os motivos são simplesmente ideológicos. Tudo começou quando o vereador evangélico Sansão Pereira, do Republicanos, barrou na CCJ o PL 704/2023, de autoria da vereadora Elaine do Quilombo Periférico, do PSOL, que criaria o observatório do racismo religioso. A partir daí começou a disputa de retóricas que travou a pauta do legislativo municipal.
No Colégio de Líderes da última terça-feira, bem que o presidente Milton Leite tentou acirrar os ânimos e fazer a pauta andar pedindo que as bancadas contrárias a algum projeto permitissem a votação em plenário, não obstruindo as votações e votando de acordo com suas consciências. Em vão. A vereadora Sandra Tadeu, líder do PL, apresentou uma lista de 14 projetos que motivaram, segundo ela, os seis vereadores do partido a obstruir a pauta de votações.
Na lista de projetos que o PL quer impedir que sejam votados estão a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro ao funcionários das escolas, a criação do Dia da Educação Cívica e Laica, a outorga da Salva de Prata a uma loja maçônica, a criação do Dia da Velha Guarda das Escolas de Samba e homenagens a Vladimir Herzog e à professora Ana Maria Hilário Muller, morta pela Covid-19. A criação de protocolos de combate ao racismo religioso e de atendimento à crianças vítimas de racismo, a transformação de tranças e “dreadlocks” em patrimônio imaterial e a inclusão dos terreiros de candomblé como prioridades em processos de tombamento também estão na lista de objeções do PL. Embora relativamente recente, nem uma das mais animadas e concorridas festas de Moema escapou do “crivo” do partido...
Foi assim que a vereadora Sandra Tadeu reagiu à indagação da vereadora Cris Monteiro (Novo) sobre os motivos do projeto de autoria dela, que criaria o Dia do Halloween Infantil de Moema, também estar na lista de obstruções do PL. “Sou contra os bruxos, os fantasmas, as caveiras. É uma festa demoníaca”, afirmou Sandra Tadeu.
Todo mundo quer asfalto novo na porta de casa, mas o horário que a prefeitura resolveu recapear as ruas de alguns bairros está deixando moradores sem dormir e notadamente nervosos. A coluna recebeu várias reclamações de moradores da Granja Julieta, na zona sul, cujas ruas estão sendo recapeadas. Segundo vídeos e relatos, as obras começam por volta de 21h e só terminam no meio da madrugada. Cada trecho de rua demora pelo menos dois dias para ser asfaltado. No primeiro, o chão é fresado e no segundo vem a massa asfáltica.
Os moradores também reclamam da falta de aviso prévio e que procuraram a subprefeitura de Santo Amaro para tentar alguma resposta efetiva ou detalhes do cronograma de obras, sem resultado. Um morador, pai de uma criança autista, se exaltou na madrugada de segunda-feira e discutiu com um funcionário da prefeitura. Ninguém dorme no bairro.
Outra questão que revoltou os moradores são as demarcações de distância feitas pelos funcionários nas calçadas em frente as casas, com tinta azul. Pisos de pedra mineira, cimento queimado e até de porcelanato foram danificados e a tinta não sai. Fora os montes de piche e restos de asfalto que ficaram acumulados nas calçadas e em canteiros com árvores, desde a semana passada, quando as obras começaram. “Serviço tosco, mal organizado, sujo e de baixíssima produtividade”, escreveu um morador.
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