De Olho na Cidade, por Fábio Behrend

O “destombador” de imóveis e os conflitos urbanísticos da metrópole

Capela dos Aflitos - Imagem: Reprodução | X (Twitter) - @VEJASP

Fábio Behrend Publicado em 08/11/2024, às 08h37

Insustentável

Condenado em segunda instância por improbidade administrativa, Carlos Augusto Mattei Faggin, presidente do Condephaat (órgão de preservação histórica estadual) deve ter vida curta no cargo. Responsável por zelar pelo patrimônio histórico e cultural no estado, ele assinou, pela empresa da qual é sócio, laudo que serviu de base para o destombamento do Casarão Sareceni, imóvel que contava a história da imigração italiana em Guarulhos, declarado patrimônio histórico da cidade desde o ano 2000. Entidades como o Instituto de Arquitetos do Brasil e associações como a Appit (dos proprietários e protetores de imóveis tombados no estado) publicaram cartas abertas exigindo o afastamento de Faggin do cargo.

Todos os réus

Além de Faggin, também foram condenados na mesma ação o ex-prefeito de Guarulhos, Sebastião de Almeida, o atual, Guti, duas empresas e 39 pessoas físicas. O Ministério Público investiga outros laudos assinados por Faggin, que serviram de base para o destombamento de imóveis no estado e na capital, sempre em benefício da especulação imobiliária.

Praça ou parque?

A Praça da República, tombada como patrimônio histórico desde 1985, não deve, pelo menos por enquanto, virar parque. A ideia do Conseg da região já havia sido recusada pela Secretaria do Verde e Meio Ambiente, foi refutada pelo prefeito Ricardo Nunes e, ao que tudo indica, não vai mesmo adiante.

Terra de ninguém

Os moradores argumentam que a praça está degradada, virou rota de fuga para assaltantes, ponto de prostituição, tráfico e consumo de drogas. A ideia seria cercar a praça com grades, instalar câmeras e controlar o acesso, como foi feito na Praça Princesa Isabel. O Conpresp adiou a decisão de recomendar ou não a mudança. Na praça estão o prédio histórico da Secretaria de Educação, uma escola municipal e dois acessos ao metrô. Palco de ações sociais e shows, a praça também abriga, desde 1956, a mais tradicional feira de artesanato da cidade. 

Horário comercial

Já faz algum tempo que o policiamento foi reforçado na Praça da República, o que diminuiu sensivelmente as ocorrências e aumentou a sensação de segurança de quem transita por ali. Mas só durante o dia. Depois das 18h, quando começa a escurecer, o efetivo da PM diminui muito e a República se transforma num lugar sombrio, assustador, quase terra de ninguém.

Túneis da discórdia

De nada adiantaram os protestos. A prefeitura começou na quarta-feira a remover 172 árvores (78 delas nativas) na Vila Mariana, onde serão construídos dois túneis que vão ligar a rua Sena Madureira à avenida Ricardo Jafet, passando por baixo da Domingos de Moraes. A prefeitura não reconhece a área como de preservação permanente e afirma não ter encontrado recursos hídricos no local, argumentos utilizados por quem é contra a obra.

Ativistas

Ontem, a cicloativista Renata Falzoni, recém eleita vereadora pelo PSB, e o ex-deputado Eduardo Jorge tentaram impedir o corte de árvores na Sena Madureira, abraçando-se a elas. Foram retirados à força pela Guarda Civil Metropolitana.

Detalhe

Durante os protestos das últimas semanas, as árvores foram o centro das atenções e pouco se  falou sobre a remoção de 150 famílias que há pelo menos 4 décadas vivem em duas comunidades na região, a Souza Ramos e a Luiz Alves. Seriam pessoas invisíveis?

Poder Público

A prefeitura garante que as famílias serão transferidas para novas moradias ou indenizadas, que fará a compensação ambiental pela retirada das árvores de acordo com a legislação e que 800 mil pessoas serão beneficiadas pelos túneis, planejados para desafogar o trânsito na região. Na tarde de ontem, o Ministério Público solicitou a suspensão imediata das obras.

Memorial dos Aflitos

Rua Galvão Bueno, 51. Trata-se de um sítio arqueológico incrustrado na Liberdade onde funcionou o antigo Cemitério dos Aflitos, de 1775, e que será transformado num memorial sobre o tempo da escravidão. Acontece que as obras irregulares de um prédio vizinho têm colocado em risco a segurança das escavações. A grande questão é que ninguém conseguiu, até agora, localizar o dono do tal prédio, onde no início da semana trabalhadores foram flagrados retirando sacos e mais sacos de terra, com grandes chances de estarem levando junto peças arqueológicas e restos mortais de antigos moradores do lugar, tombado pelo patrimônio histórico nacional. A Polícia Federal foi acionada.

Contato: deolhonacidade@spdiario.com.br

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