De Olho na Cidade

Na cidade que não dorme nunca, o barulho que incomoda muita gente

A Avenida Paulista se transforma em um palco de sons variados, mas moradores clamam por regulamentação e respeito ao sossego - Imagem: Reprodução | Adobe

Fábio Behrend Publicado em 19/09/2025, às 08h25

Avenida desvairada

A avenida Paulista estava uma loucura no último domingo. Eram 5 baterias universitárias, daquelas parecidas com escolas de samba. Havia também as tradicionais bandas de rock, alguns DJs com música eletrônica, rodas de samba, grupos de música gospel e, em pelo menos dois pontos, gente faturando uma grana extra com equipamentos de karaokê, o que é proibido por lei. Tudo ao mesmo tempo, num frenesi sonoro desregulado e caótico. “Eu ouvi Evidências pelo menos umas sete vezes”, afirma, rindo pra não chorar, Marcelo Sando, da Frente Cidadã pela Despoluição Sonora e morador da Paulista.

Uma rápida digressão

Isso sem falar em duas caminhadas alusivas ao mês de setembro, que pode ser amarelo ou vermelho, dependendo da causa. A turma do setembro amarelo, que defende a importância da prevenção ao suicídio, caminhou da estação Trianon – Masp até a Praça Osvaldo Cruz. Já a turma do setembro vermelho, que luta para conscientizar as pessoas sobre a importância da doação de órgãos, saiu da Fiesp e foi até o InCor. Eu confesso que pensei, você deve estar pensando agora, mas em respeito à importância das causas, melhor parar por aqui.

De volta ao barulho

Já falamos sobre a Frente Cidadã que o filósofo Marcelo Sando organizou para pressionar o poder público a agir. Ele e o músico Celso Reeks, que representa as bandas de rock da Paulista, reuniram-se ontem, na subprefeitura da Sé, com a secretaria de cultura, assessores de 5 vereadores e um observador do MinC em busca de um acordo para tentar disciplinar as atividades nos domingões da Paulista.

Tudo certo, mas nada resolvido

Marcelo e Celso apresentaram 10 pontos que consideram primordiais para a regulamentação, principalmente em relação aos tipos de equipamentos sonoros, que deveriam, num cenário ideal, ter potência limitada, pra não explodir os ouvidos de ninguém. “Pediram um mês para analisar nossas propostas. Antes dessa reunião (na segunda), estive com o prefeito Ricardo Nunes e com os secretários Totó Parente (Cultura) e Fabrício Cobra (Subprefeituras). Essa aproximação da sociedade civil com o poder público é o melhor caminho para resolver a questão”, afirmou Marcelo Sando. Mas todo mundo sabe que o barulho infernal não acontece só na Paulista...

Bate-estaca

Semana passada houve um festival internacional de música eletrônica no Vale do Anhangabaú, o Boma, que acontece em várias cidades do mundo, sempre durante a tarde, terminando no inicio da noite. Em Sampa? Começou depois das 22h e as 5h30 da manhã de sábado moradores da região ainda sentiam o trepidar das janelas de seus apartamentos a cada bate-estaca das potentes caixas de som.

Rima...

Jardim Celeste, zona sul. A pista de skate do bairro é palco de “batalhas de rima”, que começaram há mais de um ano e agora tem autorização da prefeitura. No portal Mapa da Cultura, as batalhas entre os MCs, que duelam na base do improviso, são definidas como uma importante manifestação de resistência da juventude periférica. “A batalha de rima pode incluir vanglória e insultos, que são uma forma de demonstrar superioridade e provocar o adversário, ainda que a forma seja lúdica”.

...pobre

Só que os moradores da região não viram nada de lúdico no conteúdo das rimas, proferido aos berros pelos MCs. Palavrões de todos os tipos, provocações de cunho sexual, apologia e consumo de drogas acabaram com o sossego da vizinhança. Fora a quantidade absurda de lixo deixado no chão, que só foi limpo no dia seguinte, pelos próprios moradores.

Caretice?

Sandra Viana mora ao lado da pista de skate e conta que as batalhas de rima foram “mudando de tom” ao longo do tempo. “Antes era até divertido ouvir, a garotada é inteligente, rápida no gatilho. Mas de uns tempos pra cá, os palavrões e a baixaria parecem ter tomado conta de tudo, perdeu a graça”.

Cada um por si

Sandra resume o tamanho do problema, não só no Jardim Celeste, mas em toda a cidade. “É impossível tomar conta de tudo, de baile funk, pancadão, rima, show que começa tarde, povo porco que joga lixo na rua. A questão é cultural, falta bom senso. Na hora de se divertir, ninguém tá nem aí pra vida do outro. Cada um que se vire”.

Contato: deolhonacidade@spdiario.com.br

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