Contrato de R$ 21,5 milhões com empresa comandada por parceiro histórico do presidente da Federação Paulista expõe rede de negócios, levanta suspeitas de conflito de interesses e coloca o Tricolor no centro de uma crise que atinge a cúpula do futebol paulista
Matheus Cunha Publicado em 11/01/2026, às 16h50
Um contrato de R$ 21,5 milhões firmado pelo São Paulo Futebol Clube deixou de ser apenas uma decisão administrativa e passou a ser visto, nos bastidores do futebol, como um dos episódios mais explosivos dos últimos anos. O acordo jogou luz sobre uma rede de empresas, alianças e interesses que orbitam a presidência da Federação Paulista de Futebol e colocou diretamente no radar o nome de Reinaldo Carneiro Bastos, o dirigente mais poderoso do futebol paulista.
A empresa beneficiada, a Milclean Serviços, não surgiu por acaso nesse cenário. Ela foi criada pelo próprio Reinaldo em 1998 e hoje segue sob o controle de Otávio Alves Corrêa Filho, seu sócio histórico, parceiro de décadas e integrante do núcleo duro de confiança do dirigente. Embora Reinaldo tenha deixado formalmente o quadro societário em 2021, a empresa nunca saiu, na prática, da sua órbita de influência.
O contrato garante à Milclean quase R$ 570 mil por mês até 2027, mais de R$ 6,8 milhões por ano e mais de R$ 21 milhões ao longo do período. Para dirigentes, conselheiros e especialistas em governança, o caso revela um padrão preocupante: a Federação Paulista, sob comando de Reinaldo, teria se transformado em uma engrenagem de poder capaz de abrir portas dentro dos clubes para empresas ligadas ao seu próprio círculo político e empresarial.
Nos corredores do Morumbi, o sentimento é de indignação. O episódio passou a ser interpretado como a prova de que parceiros do presidente da FPF conseguem acessar contratos milionários dentro dos clubes paulistas, enquanto os mecanismos de controle parecem incapazes de impedir a mistura entre poder esportivo e interesses privados.
A crise se agravou ainda mais quando documentos internos indicaram que, em diversos períodos, a Milclean teria entregue ao São Paulo um número de funcionários muito inferior ao previsto em contrato. Na prática, isso significa que o clube pode ter pago valores integrais por serviços prestados de forma parcial, ampliando as dúvidas sobre a lisura e a eficiência do acordo.
Oficialmente, o São Paulo afirma que a empresa venceu uma concorrência formal. A Federação Paulista sustenta que Reinaldo não mantém vínculo societário com a Milclean desde 2021. Mas, nos bastidores, essa explicação não convence. O fato de a empresa continuar sob o controle de seu parceiro histórico reforça a percepção de que a separação é apenas formal e que a influência do presidente da FPF segue operando por meio de aliados.
A revolta já começa a transbordar para fora dos gabinetes. Um dirigente ligado ao clube resumiu o sentimento que cresce entre torcedores e conselheiros:
“O torcedor do São Paulo não pode mais aceitar isso. Ele paga ingresso, compra camisa, lota o Morumbi, apoia o time em todos os momentos e vê o clube ser usado como peça dentro de um jogo de interesses que não tem nada a ver com futebol.”
O caso escancarou uma crise que vai muito além de um contrato de limpeza. Ele expôs um modelo de poder no futebol paulista em que a estrutura da Federação, que deveria zelar pela lisura e pelo equilíbrio das competições, agora aparece como base de apoio para uma rede de negócios privados, com impacto direto no caixa e na credibilidade de um dos maiores clubes do país.