Denúncia reacendeu o debate sobre a proteção de crianças e adolescentes na internet, mobilizando autoridades e a sociedade civil para ações imediatas
William Oliveira Publicado em 12/08/2025, às 13h30
Recentemente, a questão da adultização infantil ganhou destaque após um vídeo publicado pelo youtuber Felca, que já ultrapassa 30 milhões de visualizações. A produção audiovisual aborda a precoce exposição de crianças a conteúdos e comportamentos próprios da vida adulta, evidenciando um problema que vem se agravando há anos.
Com duração de quase 50 minutos, o vídeo discute temas como a presença de “coachs mirins” e jovens que falam sobre investimentos nas plataformas digitais. Além disso, Felca faz graves acusações contra o influenciador Hytalo Santos, apontado por supostas práticas de exploração sexual de menores em suas publicações online.
A situação piorou para Hytalo Santos, que já estava sob investigação do Ministério Público da Paraíba (MPPB). Após o clamor popular gerado pelo vídeo, sua conta no Instagram foi removida. Antes da exclusão, ele publicou um vídeo se defendendo e afirmando estar colaborando com as autoridades.
Esse caso provocou uma reação em cadeia, mobilizando figuras políticas e personalidades públicas. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou a intenção de discutir, ainda esta semana, propostas para proteger crianças e adolescentes nas redes sociais.
O que é a adultização?
Adultização refere-se à exposição precoce de crianças a conteúdos, responsabilidades e estéticas típicas da vida adulta, antes que estejam emocionalmente preparadas. A pediatra Dra. Anna Bohn, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explicou em entrevista ao SBT News, a que essa prática envolve riscos significativos para a saúde mental e emocional infantil.
“A adultização infantil implica exposição contínua a hábitos e comportamentos adultos durante a infância, o que pode resultar em situações de abuso infantil”, alerta.
A pedagoga Mariana Ruske, fundadora da Senses Montessori School, destaca que o problema central está na “subtração de etapas cruciais do desenvolvimento infantil”.
Mariana ressalta que a adultização pode ocorrer de forma sutil ou explícita, como ao abordar temas complexos sem o devido filtro.
Riscos e consequências
Os impactos podem ser profundos e duradouros. Dra. Anna Bohn alerta que essa exposição aumenta o risco de violência e traumas psicológicos, como ansiedade e depressão. Além disso, crianças adultizadas podem passar por uma sexualização precoce, tornando-se vulneráveis ao abuso por não saberem estabelecer limites.
A pedagoga Mariana complementa que o fenômeno interrompe o desenvolvimento natural, gerando insegurança e distorção nos valores pessoais.
“Crianças expostas a conteúdo e linguagens adultas têm sexualização precoce e se tornam mais vulneráveis a abuso sexual, por não conseguir reconhecer e impor limites”, explica.
Embora não seja um problema novo, as redes sociais atuam como catalisadoras desse processo. Dra. Bohn observa que, sem supervisão parental, a exposição digital pode ser ainda mais prejudicial.
Mariana critica o ambiente das redes sociais por promover comparação constante, levando os jovens a buscar validação em padrões irreais.
Estratégias de proteção
Especialistas recomendam que a proteção comece no ambiente familiar. Dra. Bohn enfatiza a importância da informação e da comunicação sobre os riscos digitais, sugerindo limitar o uso de celulares antes dos 13 anos e o acesso às redes sociais antes dos 16.
Mariana acrescenta que é fundamental proporcionar experiências adequadas à faixa etária e estimular o pensamento crítico, fortalecendo a autoestima e diminuindo a busca por aprovação externa.
Além disso, ambos defendem políticas públicas rigorosas. Dra. Bohn recomenda a regulação das grandes empresas de tecnologia para monitorar conteúdos impróprios e garantir a segurança infantil nas plataformas. Também apoiam a criação de normas claras e fiscalização sobre publicidade dirigida ao público infantil, bem como campanhas educativas e punições severas para quem explora imagens e vídeos de crianças.
Quem é Felca?
Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, é um influenciador digital e humorista brasileiro natural de Londrina, Paraná. Com 27 anos, ele ganhou notoriedade nas redes sociais por seu estilo irreverente e críticas afiadas ao universo digital. Seu canal no YouTube, que soma mais de 5 milhões de inscritos, aborda temas como cultura pop e comportamento online.
Antes da repercussão atual, Felca já havia se envolvido em polêmicas com outros influenciadores. Em 2023, ele testou a base líquida da marca WePink, de Virgínia Fonseca, em um vídeo que se tornou viral. Na gravação, Felca aplicou o produto de forma exagerada, brincando sobre a qualidade e a textura do produto. A reação gerou críticas de Virgínia, que, segundo Felca, teria ficado "com ego frágil" e o excluído de seu círculo de amigos .