Novo pacote prevê crédito com juros subsidiados para exportadores e setores estratégicos; medida coincide com tarifa adicional de 25% imposta por Washington sobre produtos brasileiros
Letícia Sales Publicado em 23/07/2026, às 12h26
No mesmo dia em que a tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros entrou em vigor, o governo federal anunciou um novo pacote de apoio às empresas exportadoras do país. Batizado de Plano Brasil Soberano 3, o programa disponibiliza R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito com juros subsidiados, voltadas a exportadores e a setores considerados estratégicos para a economia nacional. A iniciativa também passa a contemplar empresas prejudicadas por conflitos internacionais.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a nova tarifa norte-americana deve atingir cerca de 15% da pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos, o equivalente a US$ 5,8 bilhões.
Para viabilizar o programa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória (MP) e sancionou um projeto de lei de conversão. A nova MP amplia o Plano Brasil Soberano ao permitir o uso combinado de recursos do Tesouro Nacional com recursos próprios do BNDES no financiamento das novas linhas de crédito.
Na mesma quarta-feira, Lula também sancionou o Projeto de Lei de Conversão nº 7, originado da Medida Provisória 1.345, editada em março, que havia instituído as linhas de financiamento do Brasil Soberano. Durante a tramitação, o Congresso ampliou o alcance do texto para incluir, além dos exportadores de bens industriais e seus fornecedores, outros setores estratégicos para o comércio exterior do país.
Do total de R$ 18,5 bilhões, R$ 13,5 bilhões virão do Tesouro Nacional e R$ 5 bilhões do BNDES. As linhas de crédito poderão financiar capital de giro, aquisição de máquinas e equipamentos, investimentos produtivos, inovação tecnológica, adaptação de produtos e processos, além da abertura e prospecção de novos mercados.
As taxas variam conforme a finalidade do financiamento: projetos ligados a minerais críticos podem ter juros de até 3% ao ano, enquanto o capital de giro destinado a grandes empresas chega a 9,80% ao ano.
Além das empresas diretamente atingidas pelas tarifas americanas, o programa passa a beneficiar exportadores prejudicados por conflitos internacionais — especialmente os que mantêm operações no Golfo Pérsico — e amplia o acesso a setores como agricultura, pecuária, florestas plantadas, pesca e aquicultura, cooperativas, mineração, fertilizantes, indústria química, farmacêutica, têxtil, automotivo, máquinas e equipamentos, e materiais elétricos e eletrônicos. Os recursos também podem ser usados para adequações a exigências do comércio internacional, como requisitos sanitários, ambientais e de rastreabilidade.
Durante o anúncio, o vice-presidente Geraldo Alckmin destacou que o pacote vai além do financiamento tradicional. "O Brasil Soberano 3, além de garantir crédito para as empresas envolvidas, traz outro benefício, que é o seguro garantia para pequenas empresas", declarou.
O plano de aplicação dos recursos ficará a cargo do BNDES, com aprovação de um conselho interministerial responsável por definir as prioridades de financiamento de acordo com os impactos sofridos por cada setor.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, apontou que os segmentos mais prejudicados pelas tarifas americanas incluem madeira, móveis, produtos cerâmicos, máquinas e equipamentos, calçados e açúcar. Segundo ele, o programa também deve atender empresas afetadas por novas medidas protecionistas ainda em estudo pelos Estados Unidos.
"A linha 3 do Brasil Soberano vai acolher não só quem já estava sofrendo pelos conflitos geopolíticos e pelas tarifas já adotadas, como também para as que vierem, como as esperadas para sexta-feira, de trabalho forçado", afirmou o ministro.
Apesar do reforço financeiro, o governo brasileiro afirma que continua buscando uma saída negociada para o impasse comercial com os Estados Unidos. Segundo integrantes da equipe econômica e diplomática, o Brasil manteve diálogo com representantes da Casa Branca até os últimos dias antes da entrada em vigor das novas tarifas, mas as tratativas não avançaram. A avaliação do governo é de que a decisão americana teve motivação política, e o Brasil pretende manter aberto o canal diplomático.
Na véspera do anúncio do pacote, Alckmin já havia descartado medidas imediatas de retaliação comercial. "A ideia não é retaliação. Diz que olho por olho pode acontecer de os dois ficarem cegos. A reciprocidade é: nós estamos sendo injustiçados e queremos corrigir isso", afirmou o vice-presidente na terça-feira.
O Plano Brasil Soberano foi lançado em 2025 para apoiar empresas exportadoras diante das primeiras medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos. Ao longo de três etapas, o programa já soma mais de R$ 69 bilhões: R$ 30 bilhões no Brasil Soberano 1, lançado em agosto de 2025; R$ 21 bilhões no Brasil Soberano 2, de março de 2026; e agora R$ 18,5 bilhões no Brasil Soberano 3, anunciado em julho de 2026.
Com a nova etapa, o governo amplia os instrumentos de financiamento para exportadores e setores estratégicos, na tentativa de reduzir os impactos das barreiras comerciais e preservar a competitividade da indústria brasileira no mercado internacional.