Jornal recorre ao mercado para evitar insolvência, mas escolha de agente fiduciário ligado ao caso Banco Master levanta questionamentos.
Redação Publicado em 17/04/2026, às 09h58
O tradicional jornal O Estado de S. Paulo, conhecido como Estadão, estruturou uma operação de captação de R$ 142,5 milhões no mercado financeiro para tentar reequilibrar suas contas em meio a um cenário de prejuízos acumulados. A estratégia, porém, ganhou contornos controversos após a contratação de uma gestora ligada a investigações em curso na Polícia Federal.
Parte da operação foi conduzida com a participação da Trustee DTVM, empresa controlada pelo empresário Maurício Quadrado, que também mantém ligação com Daniel Vorcaro, nome associado ao caso envolvendo o Banco Master.
A contratação ocorreu em março de 2024, período em que Quadrado já enfrentava bloqueio de bens determinado pela Justiça em investigações relacionadas a suspeitas de corrupção e irregularidades financeiras. Atualmente, ele e a gestora são alvo de apurações que envolvem lavagem de dinheiro e movimentações ligadas ao crime organizado.
Mesmo diante desse contexto, a Trustee foi designada como agente fiduciário em parte da emissão de debêntures — função responsável por intermediar a relação entre a empresa emissora e os investidores, além de fiscalizar o cumprimento das obrigações financeiras.
A captação foi dividida em duas etapas: uma primeira emissão de R$ 45 milhões no mercado formal, com participação da gestora, e outra de R$ 97,5 milhões realizada fora do ambiente regulado, com aportes diretos de investidores privados. Entre eles, empresas e fundos que, posteriormente, passaram a ocupar assentos no conselho administrativo do jornal.
O movimento reflete a tentativa do Estadão de evitar um agravamento de sua crise financeira. Em 2023, o prejuízo da companhia já superava o próprio caixa disponível, e, mesmo após a captação, o balanço mais recente ainda registra resultado negativo.
A entrada de investidores também trouxe mudanças na governança da empresa, incluindo a exigência de um CEO com perfil de mercado e não mais vinculado à tradicional família controladora do jornal.
Procurada, a direção do Estadão minimizou a escolha da gestora, classificando o papel do agente fiduciário como operacional e burocrático. Segundo a empresa, a Trustee presta serviços semelhantes a diversas organizações e não teria atuação direta nas decisões estratégicas da companhia.
Ainda assim, especialistas apontam que a contratação de empresas sob investigação pode gerar riscos reputacionais relevantes, sobretudo em operações financeiras de grande porte. O episódio reforça o ambiente de pressão enfrentado por empresas de mídia tradicionais, que buscam alternativas para manter suas atividades diante da transformação digital e da queda de receitas históricas.