Dennis Munhoz Publicado em 11/11/2025, às 08h00
Republicanos e democratas alternam o poder nos Estados Unidos há muitas décadas, com diferenças ideológicas, administrativas, geopolíticas e filosóficas. Contudo, há um ponto em comum que nunca muda: o aumento da dívida pública da maior economia do planeta.
Nos últimos 60 anos, foram seis presidentes republicanos e quatro democratas. Nesse período, o endividamento saltou de 36% do PIB (Produto Interno Bruto) para quase 120% ao final deste ano. Apenas no governo de Bill Clinton (1993 a 1999) houve redução desse percentual. Já as administrações democratas de Barack Obama (2009 a 2016) e Joe Biden (2021 a 2024) aceleraram o endividamento, e Donald Trump (2017 a 2020) também não tirou o pé do acelerador.
A atual administração mantém essa regra nefasta e não consegue equilibrar a delicada equação entre receita e despesa. A paralisação de alguns órgãos do governo federal, que já dura mais de 40 dias (outro recorde histórico), tem origem justamente nessa dívida, que força o governo a pedir autorização ao Congresso para aumentar o déficit a cada ano. O enredo se repete: muda apenas o tempo e a negociação política para permitir que o “buraco” fique maior.
A dívida pública dos Estados Unidos atingiu estratosféricos US$ 38 trilhões, enquanto o PIB é de US$ 29 trilhões. Não temos a pretensão de realizar uma análise extremamente técnica sobre o assunto, até porque há divergências enormes entre especialistas. Todavia, a realidade é clara: fica cada vez mais difícil o mercado mundial aceitar que essa dívida é administrável e não traz riscos aos investidores. Aproximadamente 30% desse valor pertence a credores como China, Japão e Reino Unido. O assunto só não se torna mais grave porque o dólar continua sendo a moeda das negociações internacionais, e a economia americana ainda é considerada a mais confiável, sobretudo por poder emitir e controlar sua própria moeda.
Isso explica a indignação do governo estadunidense quando alguém sugere a criação ou implantação de uma nova moeda para o comércio mundial. A China, por exemplo, não deseja que isso seja feito em sua própria moeda, pois provocaria valorização, encarecendo seus produtos de exportação e abrindo espaço para concorrentes.
A pergunta que não se cala é: até quando essa dívida será suportável? Muitos questionam o uso do dinheiro público em gastos excessivos com orçamento militar, planos assistenciais para imigrantes e suporte ao sistema de saúde. Mesmo com aumentos consecutivos de arrecadação, a conta não fecha. Trump apontou o déficit comercial com outros países como principal causa do problema e defendeu tarifas como solução imediata. Pode até ser parte da explicação, mas a solução é muito mais complexa — e definitivamente não acontecerá no curto prazo.
Apesar de o custo da dívida não ser tão desastroso por estar vinculado ao dólar, e os Estados Unidos terem amplo controle da emissão da moeda, existe um ponto que investidores detestam: risco descontrolado. Hoje não há alternativa mundial confiável para substituir o dólar, mas nada é eterno e o mercado é dinâmico. O governo estadunidense precisa fazer a lição de casa e recuperar a confiança.
O remédio é amargo e impopular para qualquer governante: cortar despesas e aumentar impostos. Esse é o único caminho, válido tanto para a maior economia do mundo como para nossas contas pessoais. Essa equação não tem exceção — quem tenta burlá-la, cedo ou tarde paga a conta. Ter dívida não é necessariamente ruim; todos os países têm. A diferença está no controle e no planejamento estratégico.
A Agência de Avaliação de Risco Moody’s rebaixou a nota dos Estados Unidos da classificação máxima “Aaa” para “Aa1”, a segunda mais alta entre 21 possíveis. Nenhum país hoje possui a nota máxima — ou seja, ninguém tirou nota maior que os Estados Unidos. A agência apontou juros elevados e desequilíbrio fiscal como principais motivos para o rebaixamento.
O mais impressionante é a velocidade do crescimento desse déficit, com projeção de 9% só para 2025. Isso significa que mais títulos serão emitidos para custear a dívida. O sinal de alerta está ligado.