COLUNA

O veneno-remédio e as ressonâncias do Sarriá

- Imagem: Odd Andersen | AFP

Rodrigo Viana Publicado em 05/07/2026, às 22h50

O Brasil voltou para casa mais cedo. A derrota para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, adiou mais uma vez o sonho do hexacampeonato e garantiu que, em 2030, a Seleção completará vinte e oito anos sem levantar a taça — o maior jejum de sua história. Como sempre acontece depois de uma eliminação, falar-se-á da CBF, do treinador, dos jogadores, das escolhas táticas e das oportunidades desperdiçadas. Tudo isso faz parte da explicação. Mas talvez não seja a explicação principal. Há derrotas que terminam no apito final. Outras continuam jogando por décadas.

A de 5 de julho de 1982, no Estádio Sarriá, em Barcelona, pertence a essa segunda categoria. Naquele dia, a Itália derrotou a Seleção de Telê Santana por 3 a 2 e interrompeu a caminhada de um time que talvez tenha sido o mais admirado da história sem conquistar uma Copa do Mundo. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Júnior e Éder voltaram para casa eliminados. Mas nunca deixaram a memória do torcedor brasileiro.

O tempo mostrou que a verdadeira derrota não aconteceu em campo.

Ela aconteceu depois.

Na tentativa de compreender o que havia ocorrido, passamos a desconfiar justamente daquilo que fazia do futebol brasileiro uma referência mundial. A criatividade passou a inspirar cautela; o improviso virou sinônimo de desorganização; o risco tornou-se um pecado.

O remédio fazia sentido: era preciso organizar melhor o talento.

O problema é que a dose se transformou em veneno.

Sem perceber, trocamos a intuição pelo protocolo.

É curioso lembrar que o Brasil jamais venceu apenas porque possuía grandes jogadores. Venceu porque transformou criatividade em método. Em 1958, apresentou ao mundo uma nova linguagem. Em 1962, mostrou que ela sobrevivia até sem Pelé. Em 1970, alcançou um equilíbrio raro entre disciplina e liberdade, organização e invenção.

É comum dizer que aquelas Copas pertenciam a outro futebol, com menor preparo físico, menos intensidade e adversários menos organizados. Há verdade nisso. Mas esse argumento, muitas vezes, soa mais como desculpa — e até como uma certa soberba — do que como explicação. É uma forma confortável de diminuir o passado para evitar as perguntas que o presente exige. O problema nunca foi a evolução do futebol. Foi termos deixado de compreender aquilo que fazíamos de melhor.

O futebol brasileiro nunca foi uma coleção de dribles.

Foi uma maneira de compreender o jogo.

Talvez por isso o Sarriá continue ecoando. Não porque tenha impedido um título, mas porque alterou a forma como passamos a olhar para nós mesmos. Em vez de corrigir defeitos, começamos a desconfiar das virtudes.

Desde então, a Seleção mudou treinadores, dirigentes e gerações. Vieram o tetra, em 1994, sustentado pela organização de Carlos Alberto Parreira e pelo talento decisivo de Romário. Depois, o penta de Luiz Felipe Scolari, em 2002, construído sobre um coletivo sólido e uma constelação formada por Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Foram conquistas grandiosas, mas talvez incapazes de interromper uma transformação silenciosa que já estava em curso.

Hoje, o Brasil continua produzindo jogadores extraordinários para os maiores clubes do planeta, mas já não consegue reuni-los em uma Seleção extraordinária.

Vinícius Júnior desequilibra partidas pelo Real Madrid e parece um jogador diferente quando veste a camisa amarela. Alisson transmite ao Liverpool uma segurança que raramente inspira na Seleção. Marquinhos, Bruno Guimarães, Gabriel Martinelli, Endrick.

Não há culpados nessa história.

Seria injusto procurar causas onde talvez existam apenas sintomas.

Nem Neymar representa a origem desse processo.

Representa sua consequência mais visível.

Durante anos, sua volta foi tratada como promessa de redenção, como se um único jogador pudesse devolver aquilo que um país inteiro deixou de construir coletivamente. Quando uma seleção espera sempre por um salvador, talvez já tenha perdido a confiança na própria ideia de jogo.

É evidente que a desorganização da CBF, a sucessão de crises políticas e a troca permanente de treinadores contribuíram para esse cenário. Mas essas explicações parecem insuficientes.

O Brasil continua formando grandes atletas.

O que deixou de formar foi uma identidade reconhecível.

Perder faz parte do futebol. Alemanha, Itália, Argentina e todas as grandes seleções conheceram derrotas e longos períodos sem títulos. O problema nunca foi perder.

O problema começa quando a derrota altera a maneira como um povo compreende o próprio jogo.

Talvez o Sarriá tenha nos ensinado a necessidade de equilibrar beleza e eficiência.

Nós aprendemos outra lição.

Concluímos que era preciso domesticar a criatividade para alcançar a competitividade.

Foi aí que o remédio virou veneno.

Em 2030, o Brasil completará vinte e oito anos sem conquistar uma Copa do Mundo.

Mas talvez essa contagem esteja olhando para o calendário errado.

O verdadeiro jejum começou quando deixamos de acreditar que era possível organizar o talento sem aprisioná-lo.

Talvez um dia a Seleção volte a levantar a taça. O futebol sempre oferece novas oportunidades às grandes escolas. Mais difícil será recuperar a confiança naquilo que um dia nos tornou únicos.

Copas se perdem.

O que um país não pode perder é a coragem de continuar sendo ele mesmo.

Rodrigo Viana é jornalista, escritor e roteirista. Dirigiu e apresentou a série especial De onde nascem os craques, disponível no Globoplay.

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