Agenor Duque Publicado em 20/12/2024, às 08h17
A Rússia tem intensificado demonstrações de força militar em meio ao agravamento das tensões globais. Nesta quarta-feira (18), dois bombardeiros estratégicos Tu-95MS das Forças Aeroespaciais da Rússia realizaram voos próximos à costa do Alasca, nos mares de Bering e Chukotka, no Ártico. Segundo o Ministério da Defesa russo, as operações ocorreram em águas neutras, respeitando as normas internacionais de uso do espaço aéreo.
Os voos, regularmente realizados em áreas como o Ártico, Atlântico Norte, Mar Negro e Oceano Pacífico, foram exibidos em redes sociais, reforçando a narrativa russa de fortalecimento militar. O exercício segue uma série de ações similares, incluindo testes recentes com mísseis hipersônicos Zirkon e disparos de mísseis de cruzeiro Kalibr, demonstrando a capacidade ofensiva e a integração entre Marinha e Força Aérea.
Paralelamente às manobras militares, o general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior russo, acusou os Estados Unidos de promover instabilidade global e violar tratados-chave de controle de armas da Guerra Fria. Em um pronunciamento contundente, Gerasimov afirmou que a falta de confiança entre Moscou e o Ocidente tornou inviável qualquer mecanismo efetivo de controle mútuo de armas.
“No geral, o tópico do controle de armas ficou no passado. Um retorno a um nível mínimo de confiança é impossível devido aos padrões duplos do Ocidente. Sem confiança, não há como criar um mecanismo de controle eficaz”, declarou. Ele também acusou os EUA de alimentar uma “corrida armamentista ofensiva estratégica”, citando a implantação de mísseis em regiões como Europa e Ásia e o reforço de tropas americanas nas Filipinas como exemplos preocupantes.
Segundo Gerasimov, os EUA se tornaram participantes diretos no conflito na Ucrânia, particularmente após o fornecimento de mísseis de longo alcance usados pelas forças ucranianas no mês passado. O general também sugeriu que a postura americana estimula outros países a adotarem medidas de resposta que ampliam as tensões globais.
A Rússia tem intensificado a frequência de seus exercícios militares. Dois dias antes dos voos no Ártico, o Ministério da Defesa russo divulgou imagens de treinamento com mísseis ultrassônicos no leste do Mediterrâneo. O exercício, que envolveu mais de 1.000 militares, dez navios e 24 aeronaves, incluiu lançamentos dos mísseis hipersônicos Zirkon e de cruzeiro Kalibr, partindo de fragatas e submarinos.
“O exercício testou métodos de ação conjunta entre a Marinha e a Força Aérea, com todos os alvos designados atingidos por ataques diretos”, informou o ministério. Esses testes ocorrem enquanto o aliado sírio da Rússia, Bashar al-Assad, enfrenta perdas territoriais para uma coalizão de rebeldes liderados por islamistas radicais.
Além disso, militares russos têm treinado o uso de sistemas portáteis de mísseis em ambientes extremos, como mostrado em Sakhalin, no Distrito Militar Oriental. Soldados foram vistos na neve montando equipamentos e utilizando simuladores modernos, enquanto eram cronometrados por superiores.
Os movimentos da Rússia coincidem com a deterioração das relações com o Ocidente, marcada por trocas de acusações e demonstrações de força militar de ambas as partes. As tensões geopolíticas, intensificadas pela guerra na Ucrânia, colocam em evidência o enfraquecimento de antigos tratados de controle de armas e o risco crescente de uma corrida armamentista global.
Os exercícios militares russos, cada vez mais frequentes e sofisticados, são também uma resposta às ações do Ocidente. Com um arsenal bélico renovado e alianças estratégicas em regiões-chave, Moscou envia uma mensagem clara: a Rússia está preparada para defender seus interesses, enquanto o cenário global se torna cada vez mais polarizado.
Essas ações aumentam a preocupação internacional sobre a possibilidade de escaladas militares em múltiplos fronts. Em meio a esse contexto, o controle de armas, visto por Gerasimov como um “assunto do passado”, se torna um desafio crucial para a estabilidade mundial.