Agenor Duque Publicado em 28/02/2025, às 08h45
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) emitiu um alerta preocupante sobre o risco de apagões em 11 estados brasileiros nos próximos anos devido à sobrecarga da rede elétrica. O problema estaria relacionado ao crescimento acelerado da geração distribuída de energia solar em residências e comércios, um fenômeno que, embora positivo do ponto de vista da sustentabilidade, apresenta desafios técnicos para o equilíbrio do sistema elétrico nacional.
O alerta faz parte do Plano de Operação Elétrica de Médio Prazo do Sistema Interligado Nacional (SIN), documento divulgado pelo ONS em dezembro de 2024, que abrange o período de 2025 a 2029. Segundo a análise, os estados mais vulneráveis ao risco de apagão são Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima e São Paulo.
O relatório tem como objetivo avaliar o desempenho do SIN para que a operação futura ocorra com segurança e de acordo com os critérios de confiabilidade estabelecidos nos Procedimentos de Rede. Embora o risco não seja iminente, o ONS destaca a necessidade de planejamento e adaptações na infraestrutura elétrica para evitar colapsos pontuais que possam prejudicar a população e a economia.
Expansão da energia solar e seus impactos na rede elétrica
Nos últimos anos, o Brasil testemunhou um crescimento exponencial da geração distribuída de energia solar fotovoltaica. Com incentivos governamentais, redução no custo da tecnologia e a busca por alternativas energéticas mais sustentáveis, consumidores passaram a instalar painéis solares em grande escala, contribuindo para um novo modelo de geração de eletricidade no país.
No entanto, esse avanço também impõe desafios técnicos. O sistema elétrico brasileiro foi originalmente projetado para uma geração centralizada, com grandes usinas gerando energia e distribuindo para os consumidores. A entrada massiva da energia solar distribuída altera essa lógica, criando um fenômeno chamado “fluxo reverso”: quando há excesso de energia solar gerada, o excedente é injetado de volta na rede elétrica, podendo causar sobrecarga e instabilidades.
Essa nova realidade exige que o setor elétrico adote medidas para garantir que a rede suporte essa descentralização sem comprometer a segurança do fornecimento de energia. A falta de planejamento adequado pode levar a desligamentos automáticos, oscilações de tensão e, em cenários mais críticos, apagões regionais.
Soluções e medidas preventivas
Diante desse cenário, o ONS recomenda reforços na rede de transmissão, aprimoramento dos requisitos técnicos para conexão ao SIN e a instalação de equipamentos que garantam maior estabilidade do sistema. Além disso, sugere que as distribuidoras assumam um papel mais ativo na gestão da energia distribuída, atuando como Operadoras de Sistema de Distribuição (DSOs) e coordenando o fluxo de energia junto ao ONS.
Especialistas também alertam para a necessidade de investimentos em tecnologia e digitalização do setor elétrico, com a implementação de redes inteligentes (smart grids) que consigam equilibrar a oferta e demanda de energia de forma mais eficiente. O uso de baterias de armazenamento pode ser uma solução viável para reduzir os impactos da intermitência da energia solar, permitindo que o excedente gerado durante o dia seja utilizado à noite ou em momentos de maior demanda.
O Brasil já enfrentou apagões devido à sobrecarga?
O risco apontado pelo ONS não é inédito. Em agosto de 2023, o país enfrentou um apagão que afetou 25 estados por cerca de seis horas, causado por falhas na distribuição e na compensação da intermitência da energia renovável. O episódio evidenciou a necessidade de um planejamento robusto para evitar novas ocorrências.
A sobrecarga gerada pela energia distribuída é um problema técnico que já foi identificado em diversos países que passaram por um crescimento acelerado da geração solar. Na Alemanha, por exemplo, foi necessária uma reestruturação da malha elétrica para suportar a nova realidade. O Brasil segue um caminho semelhante e precisa se antecipar a esses desafios para evitar prejuízos econômicos e sociais.
Conclusão
A transição energética no Brasil avança a passos largos, e o crescimento da geração distribuída é um reflexo positivo desse movimento. No entanto, a rápida expansão da energia solar exige um planejamento criterioso para que a infraestrutura elétrica acompanhe essa transformação sem comprometer a confiabilidade do sistema.
O alerta do ONS deve servir como um chamado à ação para autoridades, concessionárias e consumidores, para que medidas sejam tomadas a tempo de evitar um cenário de apagões nos próximos anos. Investimentos em tecnologia, modernização da rede elétrica e uma regulamentação que favoreça um equilíbrio entre geração e distribuição são fundamentais para garantir um fornecimento de energia seguro e sustentável para todos.