COLUNA

EUA testam o “olho que tudo vê”: reconhecimento facial agora é arma migratória

Aplicativo móvel transforma celulares em scanners de rostos; críticos alertam para o risco de abusos e vigilância em massa

O sistema Mobile Fortify permite que agentes realizem verificações sem supervisão, gerando debates sobre ética e segurança de dados - Imagem: Reprodução / NYT / O Globo

Agenor Duque Publicado em 13/11/2025, às 08h38

O U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) vem expandindo silenciosamente seu arsenal tecnológico.

Hoje, agentes da imigração podem simplesmente apontar um celular para o rosto de alguém e, em poucos segundos, descobrir se há correspondência em bancos de dados federais, incluindo status migratório, registros criminais e perfis biométricos.

O sistema, conhecido como Mobile Fortify, combina reconhecimento facial e leitura de impressões digitais, permitindo que qualquer agente, mesmo distante dos escritórios oficiais, execute checagens instantâneas. O dispositivo já é descrito por analistas como “o olho que tudo vê” do governo americano.

Tecnologia sob sigilo

Relatórios obtidos por veículos independentes indicam que o ICE também firmou contratos com desenvolvedores de softwares capazes de acessar remotamente celulares, ampliando o alcance das operações a níveis sem precedentes.

Segundo o portal KUOW, o aplicativo foi testado em campo em ações recentes, sem qualquer supervisão pública visível.

A senadora Elizabeth Markey e o deputado Adam Schiff cobraram a suspensão imediata do programa até que haja clareza sobre base legal, margem de erro e política de uso de dados.

Mesmo assim, o sistema segue ativo em investigações locais e postos de fronteira.

A indústria da vigilância

Apurações da Reuters e da The Verge revelam que o governo americano amplia o uso do reconhecimento facial em aeroportos e zonas de fronteira.

A justificativa oficial seria “agilizar processos de verificação de identidade”, mas especialistas alertam que o efeito real é consolidar uma rede de vigilância permanente, capaz de rastrear qualquer indivíduo, documentado ou não.

Pesquisas acadêmicas comprovam que tais sistemas registram mais falhas com rostos negros e latinos, alimentando o receio de viés racial e detenções equivocadas.

O Wall Street Journal acrescenta que o vazamento de dados biométricos é risco concreto, já que empresas privadas operam com padrões distintos de segurança digital.

Privacidade em xeque

Para juristas e defensores de direitos civis, o debate central não é apenas tecnológico, mas ético.

Sem regulação federal e sem supervisão judicial clara, abre-se espaço para abusos, perfis raciais e perseguições indevidas.

Embora o ICE afirme que o Mobile Fortify ainda se encontra em fase de avaliação, não há cronograma, valores de contrato nem parâmetros de auditoria conhecidos.

O fato é que o sistema já opera em diversas regiões urbanas e de fronteira, com resultados mantidos sob sigilo institucional.

Tradução popular

Na prática, o governo americano transforma celulares em caçadores digitais, aptos a reconhecer, rastrear e identificar pessoas em qualquer lugar.

Como alertou um parlamentar, essa tecnologia “pode converter o país inteiro em um campo de triagem biométrica”.

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