Agenor Duque Publicado em 23/12/2024, às 08h17
A história de Gisèle Pélicot está entre os casos mais chocantes de violência sexual já revelados na França. Por uma década, a vítima foi drogada pelo próprio marido, Dominique Pélicot, que convidava estranhos para estuprá-la enquanto ela estava inconsciente. A gravidade dos crimes e a coragem de Gisèle em renunciar ao anonimato trouxeram à tona questões fundamentais sobre os limites da justiça e a luta pelos direitos das mulheres.
O esquema de horrores
Entre 2011 e 2020, Gisèle foi vítima de mais de 90 estupros cometidos por pelo menos 72 homens diferentes, conforme apontaram as investigações. Dominique dopava a mulher ao misturar tranquilizantes na comida e bebida. Em seguida, convidava homens por meio de sites de encontros para irem à casa do casal e abusarem dela.
Para evitar pistas, os abusadores eram orientados a não usar perfumes ou tabaco e a tirarem suas roupas em outra parte da casa. Os crimes eram filmados por Dominique, que ainda participava de alguns abusos. Ele não cobrava dinheiro, mas afirmava, em mensagens interceptadas, que os homens sabiam que Gisèle estava inconsciente.
A descoberta
Gisèle soube que era vítima por acaso, em 2020, após Dominique ser preso por importunar sexualmente outras mulheres. Durante a investigação, a polícia encontrou um computador que continha fotos e vídeos dos estupros. Ao ser chamada para depor, Gisèle foi confrontada com as imagens chocantes: "Assisti a todos os vídeos. Não são cenas de sexo, são cenas de estupro. Dois, três homens sobre mim. Fui sacrificada no altar do vício", relatou Gisèle em entrevista.
O julgamento
O julgamento começou em setembro de 2024, em Avignon, e foi marcado por momentos de grande emoção. Dos 72 envolvidos, 50 foram formalmente acusados. Outros 22 ainda não foram identificados ou localizados. Entre os réus, 18 estavam presos e 35 alegaram inocência, enquanto 13 admitiram culpa.
Dominique pediu perdão à família e destacou a coragem de Gisèle em expor o caso. "Todos aqui, apesar da presunção de inocência, são culpados, assim como eu", afirmou durante a audiência final.
Repercussão e coragem
Ao renunciar ao anonimato, Gisèle buscou evitar que outras mulheres enfrentassem situações semelhantes. "Estes homens entraram na minha casa e me violaram com plena consciência. Por que não denunciaram? Mesmo um telefonema anônimo poderia ter salvado minha vida", disse.
Sua decisão inspirou outras vítimas de violência sexual a denunciarem seus agressores. Em 2025, Gisèle foi eleita uma das mulheres mais influentes do mundo pela BBC, tornando-se ícone feminista e um exemplo de resiliência.
Impactos e lições
O caso também revelou novos crimes de Dominique, como fotos comprometedoras de sua própria filha. Durante o julgamento, um amigo do acusado admitiu ter usado o mesmo método para estuprar sua própria esposa, ampliando o escândalo.
Para a sociedade francesa, o caso de Gisèle levantou debates urgentes sobre violência de gênero e a necessidade de leis mais rigorosas para proteger as mulheres. Movimentos em defesa dos direitos da mulher utilizaram o caso como um marco para exigir reformas legais e sociais.
Grupos de apoio também relataram um aumento significativo no número de denúncias de abuso após a exposição do caso. A história de Gisèle também levou à implementação de políticas educacionais voltadas à prevenção de violência sexual. Escolas e universidades começaram a incluir programas de conscientização e discussões sobre consentimento, buscando mudar a cultura que muitas vezes silencia as vítimas.
A coragem de Gisèle em se expor transformou sua tragédia em um apelo por justiça e mudança social. Seu testemunho ecoa como um chamado urgente para proteger mulheres contra violência e garantir que os agressores enfrentem as consequências de seus atos.