A injeção de 465 milhões de dólares em terras raras brasileiras reacende a disputa global por poder e tecnologia
Agenor Duque Publicado em 11/11/2025, às 07h28
Os Estados Unidos decidiram investir até US$ 465 milhões na produtora brasileira de terras raras Serra Verde, em Goiás, por meio da agência U.S. International Development Finance Corporation (DFC). O valor, equivalente a R$ 2,5 bilhões, será aplicado na modernização da mina, cobertura de custos e pagamento de dívidas dos acionistas.
É o tipo de movimento que revela a força americana, estratégica, pragmática e global, e a relevância do Brasil como novo território de disputa econômica e tecnológica.
Potência americana, solo brasileiro
A Serra Verde é a primeira produtora em larga escala de terras raras pesadas fora da Ásia. Extrai neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, elementos fundamentais para ímãs permanentes utilizados em turbinas eólicas, veículos elétricos, satélites e equipamentos de defesa.
A meta é alcançar até 6.500 toneladas anuais até 2027, o que colocaria o Brasil no mapa mundial desses minerais críticos.
Mas, apesar da bandeira nacional, a estrutura acionária é anglo-americana. Os fundos Denham Capital, The Energy & Minerals Group e Vision Blue Resources controlam a maior parte das ações. O concentrado extraído em Goiás ainda é enviado à China para refino, processo que multiplica por até sete vezes o valor do produto.
Interesse, não caridade
O financiamento da DFC não é caridade. É estratégia geopolítica. Washington busca reduzir sua dependência de Pequim e fortalecer cadeias de fornecimento sob influência ocidental.
A América investe, o Brasil, por enquanto, observa.
Mas se houver vontade política e planejamento industrial, o país pode transformar a presença americana em alavanca para o desenvolvimento, agregando valor no território nacional e evitando repetir o erro histórico de exportar riqueza bruta e importar tecnologia.
Entre o pragmatismo e a soberania
O debate é inevitável. Para uns, o projeto é “entreguismo”; para outros, uma parceria madura, na qual o Brasil mantém controle regulatório e define as regras do jogo.
A verdade é que as terras são brasileiras. E, com a lei e a soberania em mãos, o país pode exigir conteúdo local, refino interno e participação pública, moldando o futuro com equilíbrio entre capital estrangeiro e interesse nacional.
Enquanto isso, o mesmo DFC já destinou US$ 5 milhões à Aclara Resources, que desenvolve outro projeto em Goiás, focado em metais de alto valor. É a consolidação de uma nova rota global de mineração estratégica, onde Brasil e América caminham lado a lado, com interesses diferentes, mas complementares.
Reflexão final
A potência americana mostra sua força e sua urgência.
O Brasil exibe potencial e escolha.
Cabe agora a nós decidir se seremos palco da disputa ou protagonistas da nova era mineral.
O mundo observa.
A América investe.
E o Brasil decide