O produto químico que provocou a maior explosão em tempos de paz em Beirute chegou à cidade há sete anos, a bordo de um navio de carga de propriedade de um

Redação Publicado em 07/08/2020, às 00h00 - Atualizado às 10h16
O produto químico que provocou a maior explosão em tempos de paz em Beirute chegou à cidade há sete anos, a bordo de um navio de carga de propriedade de um empresário russo que, segundo seu capitão, nunca deveria ter parado na capital libanesa.

“Eles estavam sendo gananciosos”, afirmou Boris Prokoshev, que era o capitão do navio Rhosus em 2013, quando, segundo ele, o proprietário da embarcação lhe disse para fazer uma parada não programada no Líbano para pegar carga extra.
Prokoshev contou que o navio transportava 2,75 mil toneladas do produto químico, altamente inflamável, nitrato de amônia da Geórgia para Moçambique, quando veio a ordem para desviar até Beirute no caminho pelo Mediterrâneo.
Foi solicitado à tripulação que embarcasse um equipamento rodoviário pesado e o levasse ao porto de Aqaba, na Jordânia, antes de retomar sua jornada para a África, onde o nitrato de amônia deveria ser entregue a um fabricante de explosivos.
Mas o navio nunca deixaria Beirute. Não houve sucesso em carregar com segurança a carga adicional, e depois se desenrolaria uma longa disputa legal sobre taxas portuárias.
“Era impossível”, disse Prokoshev, de 70 anos, à Reuters sobre a operação para tentar carregar a carga extra. “Poderia ter arruinado todo o navio e eu disse que não”, afirmou ele por telefone, de sua casa na cidade russa de Sochi, na costa do Mar Negro.
O capitão e os advogados de alguns credores acusaram o proprietário do navio de abandonar a embarcação e conseguiram que ele fosse detido. Meses depois, por razões de segurança, o nitrato de amônia foi descarregado do navio e colocado em um depósito portuário.
Na última terça-feira (4), o estoque pegou fogo e explodiu não muito longe de uma área residencial de Beirute. A enorme explosão matou pelo menos 145 pessoas, feriu 5 mil, arrasou prédios e deixou mais de 250 mil pessoas desabrigadas.
O navio, que apresentava vazamentos, poderia ter deixado Beirute se tivesse conseguido carregar a carga adicional.
O capitão e três tripulantes passaram 11 meses na embarcação enquanto a disputa judicial se arrastava, sem salários e com suprimentos limitados de comida. Depois que eles saíram, o nitrato de amônia foi descarregado.
“A carga era altamente explosiva. É por isso que foi mantida a bordo quando estávamos lá. O nitrato de amônia tinha uma concentração muito alta”, disse Prokoshev.
Ele identificou o proprietário do navio como o empresário russo Igor Grechushkin. Tentativas de contato com Grechushkin não tiveram resultado.
A polícia do Chipre interrogou Grechushkin em sua casa no país, nessa quinta-feira (6). Um porta-voz da polícia cipriota informou que um indivíduo, de quem não citou o nome, foi interrogado a pedido da Interpol em relação à carga de Beirute.
As primeiras investigações libanesas sobre o que ocorreu indicaram negligência no manuseio do produto químico potencialmente perigoso.
O governo do Líbano concordou, na quarta-feira, em colocar todos os funcionários portuários de Beirute, que supervisionam armazenamento e segurança desde 2014, em prisão domiciliar.
O chefe do porto de Beirute e o chefe da alfândega disseram que várias cartas foram enviadas ao Judiciári, pedindo que o material fosse removido, mas nenhuma ação foi tomada.
A Reuters não pôde entrar em contato imediatamente com o ministro da Justiça do Líbano para comentar. O Ministério da Justiça está fechado por três dias de luto nacional.
O navio Rhosus naufragou no local onde estava ancorado no porto de Beirute, de acordo com e-mail de maio de 2018, de um advogado para Prokoshev, dizendo que a embarcação havia submergido “recentemente”.
REUTERS
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