Obras e política social. A receita tão conhecida na política brasileira foi adotada por Jair Bolsonaro nas viagens que têm feito pelo país. Para surfar a

Redação Publicado em 30/08/2020, às 00h00 - Atualizado às 13h26
Obras e política social. A receita tão conhecida na política brasileira foi adotada por Jair Bolsonaro nas viagens que têm feito pelo país. Para surfar a onda da popularidade trazida pelo auxílio emergencial, cujo efeito rendeu sua maior aprovação em um ano e meio de governo, segundo o Datafolha, o presidente intensificou visitas em cidades do Norte e do Nordeste numa agenda que incluiu inauguração de obras feitas por antecessores.
Desde abril, Bolsonaro tem priorizado locais onde o benefício de R$ 600 tem mais peso. Dos 23 municípios visitados desde abril, dez estão no Norte e no Nordeste — sete viagens foram feitas de junho até agora.
No Nordeste, especialmente, pesquisas apontam que o presidente tem avançado sobre a base lulista. No roteiro presidencial, pelo menos um em cada três habitantes está recebendo o auxílio. Em alguns casos, chega à metade da população.
Além do benefício, Bolsonaro vem aproveitando a conclusão de obras iniciadas em gestões anteriores. A estratégia é fazer do pacote assistencial e da entrega de empreendimentos uma marca do governo.
Uma das obras inauguradas foi o Eixo Norte do projeto de Transposição do Rio São Francisco, iniciado em 2007. Depois de Lula, Dilma e Temer, foi a vez de Bolsonaro deixar seu nome na placa, mesmo tendo avançado apenas 1% na execução do projeto, hoje em 97,49%, e pago R$ 675 milhões dos mais de R$ 10 bilhões investidos.
A obra no “Velho Chico” não é exceção. Das 12 entregues desde abril, apenas cinco foram iniciadas na atual gestão, sendo duas delas a transformação de escolas já existentes em cívico-militares.
O governo dá sinais de que não pretende abandonar essa agenda tão cedo. Somente na semana que passou, além da visita, ontem, a Caldas Novas (GO), Ipatinga (MG) e Foz do Iguaçu (PR) entraram no roteiro. Até mesmo obras da iniciativa privada são alvos da presença massiva do presidente, com direito a aglomerações.
O foco, no entanto, está no Nordeste . O “olhar especial” para a região é um pedido de Bolsonaro, como revelou o ministro Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional, ao lançar o Casa Verde e Amarela, substituto do “ Minha casa, minha vida ”.
Especialistas afirmam que Bolsonaro antecipou o movimento de campanha e se orienta de olho nos dividendos eleitorais em 2022, principalmente entre os mais pobres, com renda inferior a dois salários mínimos, beneficiados pelo auxílio emergencial e por obras de infraestrutura.
“Ele percebeu que não dá para fazer política só com ideologia . E isso reforça o bolsonarismo com argumentos tangíveis, não apenas ideológicos. É a prestação de contas que todo governante faz que sustenta ele hoje”, ressalta Jairo Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos em Política e Economia do Setor Público (Cepesp/FGV).
A limitação é, no entanto, orçamentária. Economistas afirmam que não há espaço fiscal para manter o auxílio de R$ 600 e ainda realizar grandes obras até 2022. Caso mantenha o rigor defendido por Paulo Guedes, o presidente precisará se contentar com inaugurações como a de São Vicente (SP): uma ponte cujo aporte da União foi de apenas R$ 5 milhões.
“Sem isso (marcas sociais), é difícil para Bolsonaro manter essa aprovação . Vai enfrentar uma crise econômica seríssima e está na berlinda de investigações”, ressalta Carolina Botelho, cientista política do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública da Uerj. “Mas, se isso vingar, ele está feito. Está com a faca e o queijo na mão”.
A estratégia de avanço sobre o lulismo , no entanto, não é garantia de sucesso, na avaliação de Jairo Pimentel. Ao crescer sobre o PT no Nordeste, Bolsonaro pode tirar seu antagonista da disputa.
“Ter um eleitorado mais parecido com PT em 2022 do que o de com 2018, realinhando o eleitorado em termos de classe social, perdendo a classe média e ganhando os mais pobres, pode ser perigoso para o Bolsonaro. Ele não pode ir com muita sede ao pote, pois pode perder o antagonismo (antipetismo) e conta com grande rejeição para um possível segundo turno”, afirma.
Sem partido, Bolsonaro tem confiado a articulação de sua agenda no Nordeste ao ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e a aliados e líderes de partidos do centrão. Com aprovação em alta na região após a implementação do auxílio emergencial, o presidente passou a mirar em estados que haviam sido relegados em seu primeiro ano de mandato. Em 2018, ele teve apenas cerca de 30% dos votos do Nordeste no segundo turno.
Natural do Rio Grande do Norte, Marinho é apontado como o principal responsável pela coordenação da agenda do presidente na região. Ele, segundo aliados, convenceu Bolsonaro a focar suas visitas na inauguração de obras na região, principalmente as que envolvem distribuição de água.
Desde então, o presidente visitou obras de transposição do Rio São Francisco, no Ceará, além de intervenções de perfurações de poços no Rio Grande do Norte e uma usina de dessalinização de água. Interlocutores de Rogério Marinho afirmam que seu ministério é a “principal interface” do governo no Nordeste.
Durante a campanha eleitoral , Bolsonaro costumava fazer críticas ao centrão. Mas, desde que selou a aliança com o bloco, líderes desses partidos — como o deputado Artur Lira (PP-AL) e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) — tornaram-se aliados de primeira hora do presidente e passaram a abrir espaço em suas bases no Nordeste para as agendas do governo .
Os dois políticos são velhos conhecidos pela Lava Jato . Lira foi denunciado sob acusação de corrupção passiva por propina de R$ 1,6 milhão da empreiteira Queiroz Galvão. Já Nogueira foi denunciado em fevereiro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por suposta propina de R$ 7,3 milhões da Odebrecht .
“Marinho tem levado o presidente em inaugurações de obras importantes no Nordeste nas áreas de saneamento, água e construção de moradias, áreas cujas distorções e desigualdades ficaram evidentes na pandemia”, afirma Nogueira.
Lira, hoje um dos principais articuladores do governo Bolsonaro no Congresso, recepcionou Marinho no mês passado em Alagoas, seu reduto eleitoral, para a entrega de uma adutora de abastecimento de água e uma vistoria nas obras do canal do sertão. Bolsonaro não viajou porque estava com Covid-19 .
.
.
.
Agência O Globo
Leia também

Nova namorada de Manoel Gomes, o Caneta Azul, faz revelação sobre vida íntima do casal

Relembre a Lei Mariana Ferrer, criada após revolta com audiência do caso

Caso Palmeiras: Laudo do IML não aponta lesões corporais, mas Polícia Civil mantém investigação de suposto abuso infantil

Silvia Abravanel anuncia pré-candidatura e disputa vaga na Câmara pelo PSD

Incêndio destrói galpão de distribuidora de autopeças na Lapa, em São Paulo

Negociações climáticas em Bonn encerram etapa sem texto final aprovado

Gilmar critica atuação de Mendonça em tratativas de delação de Vorcaro e vê semelhanças com a Lava Jato

Influenciador relata ter sido retirado de campanhas publicitárias por causa da deficiência: “Disseram que eu causaria constrangimento”

Anvisa aprova primeiro remédio não hormonal contra ondas de calor da menopausa

Polícia estoura canil clandestino na Zona Leste de SP e resgata mais de cem felinos de raça