Um novo depoimento à Polícia Civil aponta que três policiais militares entraram no apartamento da soldado Gisele Alves Santana horas após o disparo que causou sua morte

William Oliveira Publicado em 10/03/2026, às 07h00 - Atualizado às 07h41
Um novo depoimento prestado à Polícia Civil traz detalhes que podem impactar a investigação sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana. Segundo Fabiana, inspetora do condomínio onde o caso ocorreu, três policiais militares femininas — duas soldados e uma cabo — teriam entrado no apartamento da vítima poucas horas após o disparo e realizado a limpeza do local, que ainda apresentava manchas de sangue devido ao atendimento de emergência realizado pela manhã.
De acordo com a testemunha, ela acompanhou a entrada das policiais no imóvel por volta das 17h48. Naquele momento, o ambiente ainda preservava vestígios das tentativas de reanimação feitas pelos socorristas, com sangue espalhado pelo chão da sala.
A presença das agentes no local e a realização de limpeza levantam questionamentos sobre a possível alteração da cena e a preservação de provas periciais, consideradas fundamentais para o esclarecimento do caso.
O depoimento também aponta que o marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, teria tido acesso ao apartamento após a ocorrência. Segundo a inspetora, o oficial retornou ao imóvel para buscar pertences antes de viajar para São José dos Campos.
Outro ponto citado pela testemunha diz respeito à conduta do militar logo após o atendimento inicial. Fabiana relatou que ele teria retornado ao apartamento para tomar banho, mesmo após o disparo que vitimou a esposa. Relatos de policiais que atenderam a ocorrência indicam ainda que o oficial teria descumprido a orientação de se dirigir imediatamente à delegacia.
Todas as informações apresentadas pela inspetora foram anexadas ao inquérito policial, que segue em andamento.
O depoimento da equipe do Corpo de Bombeiros que atendeu a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, trouxe elementos que contradizem a versão de suicídio apresentada pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Neto. Com 15 anos de experiência, um dos socorristas estranhou a cena encontrada no apartamento no dia 18 de fevereiro.
De acordo com o depoimento, os principais pontos de dúvida são:
Posição da arma: O armamento estava "bem encaixado" na mão da policial, detalhe que o bombeiro afirmou ser incomum em casos de autoextermínio.
Estado da cena: A equipe observou que o sangue de Gisele já estava coagulado, indicando que o disparo ocorrera há mais tempo do que o relatado. Além disso, o cartucho da bala não foi localizado no cômodo.
Contradição do banho: Embora o oficial tenha afirmado que estava no chuveiro no momento do disparo, os bombeiros notaram que ele estava seco e não havia vestígios de água no chão do imóvel.
Alteração do local: Testemunhas relataram que o tenente-coronel desrespeitou a orientação de isolamento e retornou ao apartamento após o atendimento, apresentando, posteriormente, um forte cheiro de produto químico.
As evidências colhidas pela equipe de resgate agora fazem parte da investigação que apura as circunstâncias da morte da policial militar.

O caso ocorreu no dia 18 de fevereiro. Na ocasião, a ocorrência chegou a ser registrada inicialmente como suicídio, mas o andamento das investigações e novos depoimentos fizeram com que os investigadores passassem a considerar também a possibilidade de homicídio.
Gisele morava no local com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, que relatou à polícia que estava tomando banho quando ouviu um disparo. Segundo o depoimento dele, o casal havia discutido momentos antes. Após escutar o barulho, ele disse que saiu do banheiro e encontrou a esposa ferida.
As apurações indicaram que o disparo que atingiu a policial partiu da arma pertencente ao oficial.
Em entrevista, a mãe da vítima, Marinalva Santana, afirmou não acreditar na hipótese de suicídio. A família defende que a investigação considere a possibilidade de feminicídio.
Pessoas próximas à policial também relataram que o relacionamento do casal enfrentava conflitos frequentes. Segundo amigos e familiares, Gisele demonstrava intenção de encerrar o casamento, que durava cerca de dois anos.
O 8° Distrito Policial do Brás conduz as investigações, acompanhadas pela Corregedoria da Polícia Militar. O tenente-coronel não é considerado suspeito até o momento. Ele relatou que, após uma discussão e boatos sobre suposta infidelidade, ouviu o disparo cerca de um minuto depois de entrar no banheiro. A arma utilizada estava sobre o armário do quarto. A Polícia Civil aguarda a análise da trajetória do disparo e outros exames periciais para esclarecer os fatos.
Em nota oficial, a corporação informou:
“A Polícia Civil informa que a ocorrência foi registrada como suicídio consumado no 8º Distrito Policial (Brás). Posteriormente, foi incluída a natureza de morte suspeita, a fim de permitir a apuração detalhada das circunstâncias do óbito. O trabalho investigativo segue em andamento com acompanhamento da Polícia Militar. Detalhes serão preservados para garantir a autonomia do trabalho policial.”
O tenente-coronel segue em liberdade enquanto a investigação aguarda a conclusão dos laudos periciais que devem esclarecer as circunstâncias da morte. O oficial também se afastou de suas funções na corporação, tendo ele próprio solicitado o desligamento temporário após o ocorrido.
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