Após um ano e meio, Discord ainda não forneceu dados à Polícia Civil sobre o ataque na Escola Estadual Sapopemba, que deixou uma vítima fatal

William Oliveira Publicado em 11/06/2025, às 11h40
Mais de um ano e meio após o trágico ataque na Escola Estadual Sapopemba, localizada na zona leste de São Paulo, a plataforma Discord ainda não forneceu à Polícia Civil as mensagens que evidenciam o planejamento do atentado. O episódio resultou na morte de uma estudante e deixou outros três alunos feridos.
O autor dos disparos, um jovem de 16 anos, utilizou um grupo no Discord para compartilhar suas intenções antes de invadir a escola armado. Imagens obtidas pela polícia mostram que ele publicou fotos da instituição, buscou orientações sobre como filmar o ato e recebeu incentivos e instruções de outros participantes.
Relatórios de inteligência permitiram à Polícia Civil obter parte das informações sobre o grupo, onde também eram discutidos outros crimes. No entanto, o conteúdo completo das conversas nunca foi disponibilizado pela plataforma às autoridades.
Durante esse período, a equipe do 69º Distrito Policial (Teotônio Vilela) fez diversas tentativas para acessar os dados da empresa americana, incluindo cadastro em uma plataforma específica em inglês e comunicações com representantes do Discord. Todas as solicitações foram infrutíferas e constam no inquérito policial.
Em dezembro de 2023, uma decisão judicial autorizou a quebra de sigilo e determinou a entrega das mensagens à Polícia Civil. A empresa, entretanto, respondeu que as solicitações deveriam ser feitas por meio de uma plataforma designada, chamada Kodex. Mesmo seguindo as instruções, os investigadores não conseguiram obter o material. A última tentativa ocorreu em março deste ano.
A ausência dessas informações tem prejudicado o andamento das investigações, especialmente no que diz respeito a outros possíveis envolvidos. Embora haja indícios de que membros do grupo tinham conhecimento prévio do atentado e prestaram apoio ao autor, até o momento apenas ele foi apreendido e cumpre medida socioeducativa na Fundação Casa.
Paralelamente, em Portugal, um adolescente foi detido após investigação do Ministério Público local, que o identificou como criador do grupo no Discord e instigador do ataque. Ele está em prisão preventiva e foi denunciado à Justiça portuguesa em maio deste ano.
Na última terça-feira (10), a Polícia Civil encaminhou o inquérito à Justiça, recomendando que as apurações passem a ser conduzidas pela Polícia Federal.
Em nota oficial, o Discord informou ter colaborado ativamente com o Ministério da Justiça durante as investigações, além de ter auxiliado autoridades portuguesas na identificação e prisão de um dos organizadores do ataque.
“O Discord mantém um diálogo contínuo com o sistema judiciário brasileiro, incluindo o Ministério da Justiça e a Polícia Civil de São Paulo, e estamos abertos a novas aproximações por parte das autoridades que investigam o caso, para seguir cooperando”, diz o comunicado.
A empresa também destacou que a segurança é prioridade e afirmou continuar denunciando usuários e grupos potencialmente perigosos às autoridades brasileiras.
O ataque na Escola Sapopemba
Em 23 de outubro de 2023, um aluno da Escola Estadual Sapopemba entrou armado na instituição e atirou contra colegas. Giovanna Bezerra da Silva, de 17 anos, foi atingida na nuca e morreu no local.
Outras duas alunas sobreviveram aos ferimentos, enquanto um quarto estudante sofreu lesões leves ao tentar escapar. O autor dos disparos foi apreendido no mesmo dia e apresentou versões contraditórias sobre os motivos do ataque. A arma utilizada pertencia ao pai do adolescente.
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