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Justiça determina reintegração de posse de área no Campo de Marte

A decisão considera irregular a ocupação de área pública por clube na zona norte e autoriza demolição das estruturas, com uso de força policial se necessário para cumprimento da ordem

Área ocupada pelo Cruz da Esperança no Campo de Marte será desocupada após decisão da Justiça. - Imagem: Reprodução/Redes Sociais.
Área ocupada pelo Cruz da Esperança no Campo de Marte será desocupada após decisão da Justiça. - Imagem: Reprodução/Redes Sociais.

Erika Osti Publicado em 27/03/2026, às 18h25


A Justiça de São Paulo determinou a reintegração de posse imediata de uma área de quase 15 mil metros quadrados no Campo de Marte, na zona norte da capital, ocupada pelo Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança. A decisão, assinada pelo juiz Bruno Santos Montenegro, da 9ª Vara da Fazenda Pública, autoriza a demolição das estruturas existentes no local e o uso de força policial, caso necessário, para garantir o cumprimento da ordem.

Na decisão, o magistrado afirma que a ocupação do terreno é irregular e não gera direito de posse, por se tratar de área pública. Segundo ele, a permanência da entidade impede o avanço do projeto do Parque Municipal Campo de Marte, criado por decreto em 2024, considerado estratégico para ampliar a oferta de lazer, esporte e convivência em uma região densamente urbanizada da cidade.

Apesar da determinação de cumprimento imediato, a Justiça estabeleceu prazo de até 60 dias para desocupação voluntária do espaço. O mandado também prevê a retirada de eventuais ocupantes não identificados e reforça que o terreno precisa ser entregue livre para o início das intervenções previstas no contrato de concessão do futuro parque.

A Prefeitura de São Paulo sustenta que notificou o clube diversas vezes ao longo do processo, mas afirma que a entidade teria se recusado a receber comunicações formais e ignorado tentativas de acordo. Segundo a gestão municipal, o Cruz da Esperança foi o único entre os ocupantes da área a não aderir a um modelo negociado que previa a desocupação temporária e o retorno posterior aos novos campos após a reestruturação do espaço. A administração também aponta que o clube realizava atividades sem autorização, como eventos e comercialização de bebidas alcoólicas, o que teria contribuído para o impasse.

Do outro lado, a defesa do Cruz da Esperança afirma que já recorreu da decisão e pede a suspensão da medida. Os advogados alegam que a associação não foi devidamente ouvida e que a desocupação pode provocar danos irreversíveis à comunidade, com a interrupção de atividades esportivas e culturais mantidas há décadas.

Fundado em 1958 por um grupo de taxistas negros, o clube se consolidou como um dos principais espaços de futebol de várzea e de manifestações culturais na zona norte paulistana, com forte ligação ao samba de raiz. A entidade também destaca sua relevância histórica na região, conhecida como “Pequena África” paulistana pela presença marcante da população negra ao longo do século 20.

A mobilização em defesa da permanência do clube ganhou força após a decisão judicial. Um abaixo-assinado já reúne mais de 20 mil assinaturas, enquanto manifestações nas redes sociais classificam a medida como uma ameaça a um espaço tradicional de convivência e identidade cultural.

A área faz parte de um conjunto maior de terrenos destinados ao futuro parque, que deve ocupar cerca de 400 mil metros quadrados e será administrado por meio de concessão à iniciativa privada. Outros clubes de várzea que funcionavam no local já deixaram a área após acordo com a Prefeitura. Em um dos casos recentes, a sede do Aliança da Casa Verde foi demolida após reintegração de posse.

A gestão municipal aguarda a definição da data para cumprimento da decisão judicial. Após a desocupação, o terreno será liberado para o início das obras do parque.


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