Após dias de chuvas intensas, o Jardim Pantanal enfrenta alagamentos e a luta por suprimentos básicos se intensifica

por Marina Milani
Publicado em 09/02/2025, às 10h33
Nos últimos dias, o Jardim Pantanal, localizado na zona leste da capital paulista, enfrentou uma das piores inundações dos últimos quinze anos. A situação, marcada por chuvas torrenciais e a presença de animais peçonhentos, gerou um cenário de desespero entre os moradores, que começaram a ver a água ceder apenas na quinta-feira (6), cinco dias após o início do temporal.
A proximidade do bairro com o leito do rio Tietê tornou a separação entre as águas e as ruas indistinta, mesmo quando os níveis começaram a baixar. Caminhar pelas vielas do Jardim Pantanal revelava um panorama preocupante, com esgoto jorrando em diversos pontos e ruas ainda submersas até a última sexta-feira (7).
A resposta da comunidade foi imediata. Sônia Guimarães, uma das líderes da Associação Pró-Lar do Jardim, relatou as dificuldades enfrentadas nos últimos dias: "Foi muito difícil. Muita lama, muita água, muita fome", disse ela enquanto distribuía marmitas para os necessitados.
Entre os beneficiados estava Antonia Rocha dos Santos, de 64 anos. A costureira perdeu uma semana de trabalho e procurou alimento para si e seu marido. "A gente não conseguiu sair porque a água estava muito alta", explicou, expressando sua esperança de que não chova novamente quando as nuvens ameaçam o céu.
A religiosidade é um traço marcante entre os moradores do Jardim Pantanal. O bairro abriga diversas igrejas e muitos moradores se uniram em oração e ajuda mútua durante a crise. Um grupo de jovens do bairro se mobilizou para distribuir água e comida ao longo da semana, lembrando-se da ajuda que receberam no passado.
Entretanto, a população expressou descontentamento com a falta de apoio da administração municipal. Críticas foram direcionadas à dispersão violenta de manifestantes que buscavam auxílio para registrar suas necessidades. Os protestos foram reprimidos com balas de borracha e bombas pela Guarda Civil Metropolitana.
Além das iniciativas locais, grupos externos como o Movimento Brasil Popular também se mobilizaram para ajudar. Raquel Almeida, gestora ambiental que integra o movimento, comentou sobre as ações realizadas: "Estamos aqui desde o ano passado com cursos sobre alimentação e saúde popular. Recentemente iniciamos uma cozinha emergencial em resposta ao desastre causado pela chuva".
O temor entre os moradores é palpável. Angélica dos Santos, uma jovem mãe de dois filhos, incluindo um bebê de cinco meses, revelou seu trauma após a enchente: "Foi um pesadelo total... eu tenho medo toda vez que chove", afirmou. Ela luta para conseguir suprimentos básicos enquanto enfrenta as dificuldades impostas pela inundação.
Outra moradora impactada foi Cleide Araújo, que se mudou da Bahia em busca de melhores oportunidades. Apesar das adversidades trazidas pela tempestade, ela permanece resiliente na tentativa de reconstruir sua vida no bairro. Cleide destacou os problemas de saúde enfrentados pelas crianças devido à água contaminada.
A enfermeira Vania Aparecida da Silva viveu dias difíceis enquanto tentava limpar sua casa alagada. Ela mantém a esperança de que soluções estruturais sejam implementadas para prevenir futuras tragédias na região.
A Prefeitura de São Paulo anunciou estar concentrando esforços nas medidas emergenciais na área afetada. Em nota oficial, informaram que cerca de 43 mil refeições foram distribuídas aos afetados e mais de 1.400 famílias receberam cartões emergenciais no valor de R$ 1.000 cada.
Sobre os episódios de repressão aos manifestantes que buscavam atendimento na Escola Municipal Mururés, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana defendeu a atuação da Guarda Civil Metropolitana como uma medida necessária para manter a ordem durante a agitação popular.
A prefeitura também indicou estar estudando alternativas para resolver os problemas crônicos de alagamentos no Jardim Pantanal, reconhecendo os desafios impostos pela localização do bairro e pela ocupação irregular ao longo dos anos.
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