A maioria dos integrantes do Grupo Bitong, uma ramificação da máfia chinesa, acusados de extorquir e assassinar comerciantes em São Paulo, está em liberdade

William Oliveira Publicado em 16/02/2025, às 08h53
Em um dia aparentemente comum na Rua 25 de Março, um dos principais centros comerciais de São Paulo, Lin Xianbin, de 52 anos, caminhava despreocupado entre as barracas de camelôs quando foi identificado por uma câmera de reconhecimento facial da prefeitura. Condenado a 18 anos de prisão por extorsão mediante sequestro e associação criminosa, Lin estava foragido desde janeiro de 2023, após deixar o presídio durante uma saída temporária e não retornar. Sua captura ocorreu na tarde de 28 de janeiro, quando guardas municipais o cercaram e o conduziram a uma viatura.
Lin é supostamente um membro do Grupo Bitong, uma ramificação da máfia chinesa envolvida em extorsões contra comerciantes na capital paulista. A organização criminosa havia sido considerada desmantelada após uma operação policial em Guarujá, no litoral sul, em 2017, que resultou na prisão de diversos integrantes e na detenção do líder, Liu Bitong, capturado pela Polícia Federal no final de 2022, após quase oito anos foragido. Atualmente, Liu cumpre pena em uma penitenciária federal em Boa Vista (RR).
A prisão recente de Lin traz à tona a persistente ameaça que o Grupo Bitong representa para os comerciantes da região. Segundo levantamento realizado pelo portal Metropoles, em parceria com a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), apenas dois dos 17 membros conhecidos do grupo permanecem encarcerados em São Paulo. Além do líder, outro membro cumpre prisão domiciliar, enquanto oito já foram libertados após passagens pela Penitenciária de Itaí.
Entre os ex-integrantes do grupo estão Dagui Wang e Ou Zhou, considerados os executores da organização. Ambos fugiram do Brasil quando estavam sendo procurados pelas autoridades e foram encontrados na Guiana. Em 2019, agentes espanhóis os identificaram como procurados pela Justiça brasileira e os extraditaram. Dagui Wang foi liberado em abril de 2024 após cumprir parte de sua pena por extorsão.
Outro caso notável é o de Yong Shuai Liu, condenado a mais de 49 anos por extorsão e organização criminosa. Ele obteve a progressão para regime aberto em 2021 devido à pandemia e atualmente reside no mesmo prédio onde funcionava o QG da máfia.
A situação se torna ainda mais alarmante quando se considera o aumento das extorsões contra imigrantes chineses na cidade. Dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação (LGPD), entre 2014 e 2022 houve um total de 21 registros desse tipo de crime envolvendo cidadãos chineses, com um aumento significativo nos últimos dois anos. Casos recentes incluem desaparecimentos misteriosos que levantam preocupações sobre a resiliência da máfia chinesa na área.
A Polícia Civil e o Ministério Público atribuem ao Grupo Bitong uma série de extorsões contra comerciantes que operam principalmente nas regiões do Brás e da Rua 25 de Março. Essas atividades delituosas são caracterizadas pela cobrança de "taxas de proteção" às vítimas, sob ameaças graves caso não cumpram as exigências. Relatos indicam que alguns comerciantes foram assassinados após recusarem-se a pagar os valores exigidos pela quadrilha.
Bo Lin é considerado um dos membros mais violentos do Grupo Bitong e está preso desde março de 2017. Enfrenta uma pena superior a 142 anos por extorsãoe homicídio, embora tenha recebido ordens para ser deportado após cumprir sua pena no Brasil.
O advogado Marcelo Chilelli de Gouveia defende Bo Lin e afirma que muitos acusados enfrentam estigmas sociais severos, sendo frequentemente rotulados sem evidências concretas. Ele argumenta que a narrativa sobre uma máfia chinesa estruturada é um exagero e defende que muitos membros da comunidade chinesa são mal interpretados.
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