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COLUNA

Uma breve história da arte e do papel do artista

O Nascimento de Vênus, de Botticelli. Do sopro dos deuses ao despertar do artista, a arte sempre renasceu com o homem - Imagem: Reprodução
O Nascimento de Vênus, de Botticelli. Do sopro dos deuses ao despertar do artista, a arte sempre renasceu com o homem - Imagem: Reprodução
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 16/04/2025, às 09h43


A arte sempre acompanhou a trajetória humana, mas nem sempre teve o mesmo valor para a fé, o poder e o espírito humano.

Entre tumbas sagradas e galerias iluminadas, entre templos e museus virtuais, a criação artística atravessou séculos carregando as marcas das sociedades que a gestaram.

Da eternidade silenciosa dos anônimos às luzes das celebridades, a história da arte é também a história da mudança de valores: o que foi devoção, já foi vaidade; o que foi eternidade, já foi efemeridade.

Como a arte, e quem a cria, mudaram tanto — e o que isso nos revela sobre nós mesmos?

A arte como elo entre o sagrado e o poder

Desde as civilizações da Antiguidade, a arte foi instrumento de conexão com o sagrado e o poder. Entre babilônios, egípcios e persas, criar era um gesto de eternização: palácios, templos, tumbas repletas de imagens destinadas à perpetuação de uma ordem divina. O valor da obra estava na função, não na identidade do autor. O artista era, sobretudo, um anônimo a serviço da transcendência.

Busto de Nefertiti — A arte como expressão da beleza eterna e da espiritualidade no Egito Antigo - Imagem: Reprodução
Busto de Nefertiti — A arte como expressão da beleza eterna e da espiritualidade no Egito Antigo - Imagem: Reprodução

Da Grécia à Roma, a técnica, a beleza e a propaganda

Na Grécia Antiga, o fazer artístico era compreendido sob o conceito de téchne — um saber técnico e intelectual. O escultor ou arquiteto era reconhecido por sua habilidade refinada, mas não exaltado como criador individual. Ainda assim, nomes como Fídias, mestre das esculturas do Partenon, atravessaram o tempo como exemplos supremos da técnica a serviço da beleza ideal.

Com Roma, esse entendimento sofreu uma inflexão. Herdando o apreço pela forma grega, os romanos deslocaram o centro da arte para a funcionalidade política. A escultura preferia o realismo à idealização: rugas e expressões austeras atestavam autoridade. A arte tornou-se instrumento de propaganda do poder imperial, e raros artistas foram mencionados.

Esculturas do Partenon — A beleza idealizada sob a técnica refinada da Grécia Antiga. [Reconstrução moderna] - Imagem: Reprodução
Esculturas do Partenon — A beleza idealizada sob a técnica refinada da Grécia Antiga. [Reconstrução moderna] - Imagem: Reprodução

Na Idade Média, a fé, o anonimato e a força das guildas

Na Idade Média, a arte voltou-se quase exclusivamente ao serviço da fé. As grandes catedrais, como Chartres e Notre-Dame, erguiam-se como testemunhos da espiritualidade e da coesão social. A habilidade técnica era reconhecida, mas o nome do artista apagava-se para que a glória de Deus brilhasse.

Nesse contexto, surgiram as guildas: corporações de ofício que regulavam a formação de aprendizes e o reconhecimento de mestres. Ao estruturar o ensino e proteger o ofício, as guildas elevaram a arte a um padrão admirável, mas, paradoxalmente, da rigidez brotou a ânsia por liberdade que reinventaria o artista no Renascimento.

O Renascimento e a consagração do artista-criador

Com o Renascimento, uma transformação profunda ocorreu. Ao afirmar a dignidade do homem e recuperar a herança clássica, a arte libertou-se da função exclusivamente religiosa. O artista ascendeu de artesão a criador. O estudo da anatomia, da perspectiva e o apoio dos mecenas, como os Médici, permitiram que nomes como Leonardo da Vinci e Michelangelo emergissem não apenas como executores de obras, mas como consciências originais e influentes.

A modernidade e a ascensão do self

A modernidade aprofundaria ainda mais essa virada. Com o romantismo, a arte tornou-se expressão do mundo interior. O artista passou a ser visto como um espírito singular, movido por emoções intensas e visões únicas.

Essa valorização do self foi alimentada pelas correntes filosóficas de Kant, Schopenhauer e Nietzsche, pela literatura romântica e pelos abalos sociais da Revolução Francesa e da industrialização.

O impressionismo dissolveu as formas em luz e cor. O expressionismo expôs as emoções. O surrealismo mergulhou nos sonhos. A arte, agora, traduzia uma experiência íntima e intransferível.

A contemporaneidade e a arte do instante

Na contemporaneidade, a explosão tecnológica e a aceleração das comunicações mudaram novamente o cenário. A arte passou a disputar o instante: a atenção fugidia do público fragmentado por redes e estímulos incessantes.

Performances, instalações imersivas, obras digitais e NFTs surgem como tentativas de capturar o presente efêmero. Luz, som, inteligência artificial e realidade aumentada transformam-se em novas linguagens artísticas voltadas para a experiência imediata.

Everydays, de Beeple (NFT) – uma revolução na arte digital - Imagem: Reprodução
Everydays, de Beeple (NFT) – uma revolução na arte digital - Imagem: Reprodução

Ainda assim, algo permanece.

A arte, desde as primeiras inscrições nas cavernas até as manifestações mais passageiras da era digital, continua a narrar nossa história, ora celebrando, ora questionando o que somos.

Se o artista anônimo dos templos antigos buscava eternizar o divino, e o gênio do Renascimento buscava imortalizar o humano, hoje talvez o criador contemporâneo busque apenas ser ouvido no tumulto das vozes.

Criar é sempre um gesto de esperança: de que algo da nossa existência sobreviva.
Ainda que apenas por um instante.


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