Na arte, o tigre jamais é de papel. Na política, às vezes, sim.

por Marlene Polito
Publicado em 08/07/2025, às 09h33
Ultimamente, a expressão tem aparecido por toda parte. Nos jornais, nas rádios, nas mesas de café e, claro, nas redes sociais, que fazem das metáforas combustível diário para memes, análises e indignações coletivas. “Tigre de papel”.
Parece que o mundo anda povoado deles. Governos que ameaçam, mas não cumprem. Discursos que rugem, mas não mordem. Potências que ostentam músculos de cartolina. Influenciadores que posam de valentes, mas tremem na primeira contradição. Empresas que se vendem como gigantes e, de repente, desmoronam como castelos de origami.
A expressão não é nova. Vem da China. E não de qualquer China: vem da boca de Mao Tsé-Tung, na década de 1950, quando, com a sagacidade de quem sabia escolher imagens precisas, declarou:
“O imperialismo e todos os reacionários são tigres de papel.”
Na tradição chinesa, isso tinha um peso ainda maior. Porque o tigre não é só um animal. É símbolo de força, proteção e coragem. Rei das montanhas, guardião dos ventos, senhor do Oeste na cosmologia chinesa. Na arte, aparece em rolos de seda, porcelanas, talismãs. Sempre majestoso, garras afiadas, olhos em brasa, pronto para o salto.

Esse simbolismo não é exclusivo da China. Desde sempre, em praticamente todas as culturas, os homens buscaram nos animais um espelho de si mesmos. E, muitas vezes, também um estandarte, uma bandeira, um emblema de poder ou de virtude.
O leão, soberano na heráldica europeia, tornou-se metáfora quase universal de coragem e soberania. A águia, senhora dos céus, simboliza visão e poder, sobrevoando impérios de Roma a Bizâncio, de Napoleão aos Estados Unidos. O urso, na simbologia russa, representa força bruta e resistência. O lobo, nas culturas nórdicas, americanas e asiáticas, evoca lealdade, astúcia e espírito de grupo. O falcão, com sua precisão e velocidade, surge como arquétipo da eficácia. A raposa, atravessando fábulas e mitologias de diferentes povos, tornou-se símbolo da astúcia e da inteligência afiada.
Todos, sem exceção, foram e continuam sendo projetados como metáforas vivas das virtudes, dos medos e dos desejos humanos.
Chamar de “tigre de papel” é, portanto, um golpe simbólico devastador. Não se trata apenas de dizer que alguém é frágil. É arrancar-lhe o verniz da força. É desnudá-lo, revelando que a casca não sustenta o conteúdo.
E se a metáfora atravessou oceanos, décadas e ideologias, é porque segue fazendo todo o sentido. Talvez até mais hoje, num mundo onde tanto se vive de aparência, de discursos inflados, de narrativas cuidadosamente montadas para parecer aquilo que não são.
Vivemos tempos de muitos tigres. Mas... de papel.
Eles estão por toda parte.
Na política, onde a retórica belicosa muitas vezes esconde a falta de estratégia, de apoio ou de convicção real. Discursos performáticos substituem, temporariamente, a ausência de substância.
Na economia, onde empresas se sustentam em avaliações mirabolantes. Quando a bolha estoura, resta o colapso, financeiro e reputacional.
Nas redes sociais, onde a bravura se mede por posts, curtidas e ameaças vazias, que se dissolvem na primeira interação fora das telas.
No jogo das potências globais, onde embates se travam, muitas vezes, no campo das palavras, das sanções, dos embargos, das ameaças. Porque, no fundo, todos sabem que qualquer passo real pode ser o próprio abismo.

Mas se o tigre de papel expõe a fragilidade disfarçada de força, há também um perigo inverso: o de subestimar. Nem todo tigre de papel é feito apenas de papel. Às vezes, sob a casca frágil, esconde-se um mecanismo de manipulação. O blefe, a encenação, a fabricação do medo são, muitas vezes, estratégias calculadas. Fingir ser mais frágil do que se é. Ou, paradoxalmente, fingir ser mais forte, sabendo que não se precisará provar.
E não é que a metáfora resistiu ao tempo?

Hoje, ela se atualiza, se reinventa. Salta das páginas dos livros de história para as galerias digitais, circulando nas redes, nos discursos, nas manchetes, nos comentários de analistas e, claro, nos memes, esse espaço onde a crítica e o deboche constroem, desconstroem e reconstroem o mundo.
De certa forma, é um jogo antigo, mas que as tecnologias contemporâneas amplificaram até o limite. As fachadas se constroem rápido. E desmoronam mais depressa.
E talvez essa seja, no fim, a lição mais preciosa que essa metáfora milenar continua a nos oferecer: no mundo real, nem todo rugido é força. E, na maioria das vezes, quem precisa parecer... já não é. Enquanto quem é, simplesmente... não precisa parecer.
Porque, no fundo, o verdadeiro perigo, e talvez o verdadeiro fascínio, talvez não estejam no tigre, mas no papel.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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