
por Marlene Polito
Publicado em 26/08/2025, às 09h30
O charme sombrio dos que não querem nos salvar
A voz é grave, pausada, quase um sussurro, e cada palavra soa como sentença.
Assim Don Vito Corleone surge em O Poderoso Chefão: criminoso implacável, senhor de vidas e destinos, capaz de inspirar medo e respeito sem disparar um tiro. Só presença. E presença, no cinema e na vida, é poder.
Por que essa figura nos fascina de imediato? Talvez porque nos obriga a encarar a contradição: é perigoso, mas leal; frio, mas protetor; capaz de ordenar uma morte com a mesma voz com que abençoa um casamento. Uma liderança fora dos manuais de virtude, mas irresistível.
Há outros que, ao entrarem em cena, carregam o peso da sedução. Macunaíma se insinua com sua malícia preguiçosa; João Grilo desafia a ordem, pronto a escapar de enrascadas com a língua afiada; e o Coringa explode em riso antes que a tragédia se instale. Todos eles compartilham a mesma habilidade. A de roubar o centro da narrativa, mesmo sem a moral do seu lado.
São os anti-heróis. Personagens que subvertem a lógica do herói virtuoso, que nos atraem justamente porque carregam sombras, falhas e ambiguidades. Eles não salvam o mundo. Às vezes, nem a si mesmos. Mas é impossível ignorá- los, e, mais impossível ainda, não se sentir, de algum modo, cúmplice do seu destino.

Nos Clássicos, a glória vista do avesso
Desde os primeiros relatos épicos, o herói nunca foi tão imaculado quanto a tradição quis mostrar.
Ulisses, o celebrado protagonista da Odisseia, é tudo, menos um modelo de virtude. Vence pela esperteza, engana inimigos e aliados e volta ao lar marcado por perdas e mentiras. Mesmo assim, ou talvez por isso, permanece como símbolo de inteligência e resistência.
Séculos depois, Dom Quixote, de Cervantes, surge como um cavaleiro em frangalhos. Ridículo, sim, mas também movido por uma fé comovente no ideal. Luta contra moinhos de vento por não aceitar o mundo como ele é. É um anti- herói ternamente trágico, aquele que, mesmo enganado, nos parece mais íntegro do que os “sensatos”.

No século XIX, Raskólnikov, em Crime e Castigo, mata não por ganância, mas por ideologia. Quer provar que está acima da moral comum, e acaba esmagado pela culpa. Nele, Dostoiévski revela que o mal também pode nascer de mentes refinadas, e que a razão, sem compaixão, é abismo.
Entre a malícia e o encanto, o anti-herói brasileiro
No Brasil, Macunaíma, de Mário de Andrade, “o herói sem nenhum caráter”, atravessa aventuras movido pela preguiça, pela esperteza e pelo desejo, sempre à procura de vantagem. Não luta por causas nobres, mas sobrevive com astúcia e improviso, tornando-se um retrato vivo de nossas contradições.
Já João Grilo, de O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, é o mestre das artimanhas. Trapaceiro, língua afiada, escapa da morte mais de uma vez com golpes de inteligência rápida.
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Esses personagens, à sua maneira, conquistam nossa simpatia, talvez porque, no fundo, sabemos que a vida real exige mais malícia do que bravura.
O anti-herói nas artes plásticas, entre luz, sombra e conflito
Nas artes visuais, o anti-herói se oculta entre as pinceladas e salta do quadro para inquietar o espectador.
Caravaggio pintou a violência com uma beleza desconcertante em Judite e Holofernes. Não há inocência ali, e, ainda assim, há força, há fascínio. Judite não é uma heroína tradicional. Mata em nome do seu povo, sim, mas com um gesto tão frio quanto o de qualquer vilão.

Na arte contemporânea, Banksy transforma protesto em poesia: em Flower Thrower (2003), um manifestante lança flores, não bombas, no muro (The Wall) que separa Israel e Palestina.

Nos quadros, o herói clássico raramente encontra lugar. A arte prefere os marginais, os exilados, os duvidosos. Porque é ali, na rachadura, que vibra a humanidade que não cabe nas molduras da perfeição.
Uma reflexão só nossa
O anti-herói é o retrato que a moldura não comporta. Vive na fresta entre sombra e luz, onde a perfeição se desfaz e a verdade se revela. Não veio para salvar nem para ensinar, mas para lembrar que a vida raramente se escreve em preto e branco. Que a grandeza que nos toca também nasce do erro, da queda e da contradição.
Ao nos fascinar, ele nos devolve um pedaço de nós mesmos. Aquele que a moral polida tenta esconder, mas que, silenciosamente, sustenta quem somos.

Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]

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