Diário de São Paulo
Siga-nos
COLUNA

Ah, este Menino ...!

Fernando Pessoa, a infância do olhar e o Natal que chega sem alarde

A Natividade, de Giotto ( c. 1303 – 1305 ) - Imagem: Reprodução
A Natividade, de Giotto ( c. 1303 – 1305 ) - Imagem: Reprodução
Marlene Polito

por Marlene Polito

Publicado em 23/12/2025, às 08h11


Num meio-dia de fim de primavera

tive um sonho como uma fotografia.

Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte,

tornado outra vez menino,

acorrer e a rolar-se pela erva

e a arrancar flores para as deitar fora

e a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

(O Menino Jesus, Fernando Pessoa)

Quando o Natal se anuncia, os versos de Fernando Pessoa chegam como umalembrança doce e imprecisa. Não despertam entusiasmo ruidoso nem emoçãoespetacular. Instalam um estado de sentir diferente, como se o tempo pedisseoutro ritmo e outra escuta. É um sentimento antigo, feito também de cenas quetalvez eu nunca tenha vivido, mas que, ainda assim, me pertencem.

Por issovoltosempre ao mesmo poema.O Menino Jesusacompanha meus Nataishá muitos anos. Ele me aproxima de um Menino surpreendentemente criança,profundamente humano e, justamente por isso, divino.

“Ele é a Eterna Criança,o deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e brinca.”

Logo nessa estrofe inicial, o Natal se desloca. Não há anúncio solene, nemteologia, nem promessa de redenção. O Menino não vem explicar o mundo, masestar nele. Sorri, brinca, corre. Existe. É um Cristo sem peso doutrinário, semmissão explícita, sem gravidade excessiva.

No poema, Pessoa faz algo raríssimo no Natal: desdogmatiza o sagrado semprofaná-lo. O Menino Jesus não é teológico; é sensível, próximo, quase terreno. Habita o mundo com a naturalidade de uma criança que vê as coisas antes denomeá-las.

“Hoje vive na minha aldeia comigo.”

Limpa o nariz no braço, chapinha nas poças, rouba frutas, foge dos cães.

“E, porque sabe que elas não gostam/ E que toda a gente acha graça,/ Corre atrásdas raparigas/ que vão em ranchos pelas estradas/ Com as bilhas às cabeças/ Elevanta-lhes as saias.”

O divino não se purifica,masse mistura. E, ao se misturar, se torna vivo.

Não é casual que esse poema pertença aAlberto Caeiro, o heterônimo de Pessoaque sempre desconfiou das explicações abstratas. Para Caeiro, pensar demaisafastava as coisas de si mesmas. Ver era suficiente. Por isso, o Menino do poemanão carrega símbolos: carrega presença.

“Ele olha para tudo com a clareza com que as coisas existem.”

Nesse verso está a chave de tudo. Pessoa não“explica”o Natal; ele o desloca. OMenino não nega o sagrado. Apenas o retira do pedestal e o devolve ao mundosensível.

É exatamente nesse ponto que o poema toca a arte. Em seus momentos maisdecisivos, a criação artística também tentou reaprender a ver: ver antes deinterpretar, mostrar antes de explicar. A infância, não como tema, mas comométodo.

Quando Giotto pinta a Natividade, o nascimento deixa de ser uma cena suspensano céu e passa a ocorrer no mundo. Há chão, peso, silêncio. O sagrado não seimpõe. Repousa.

Esse Cristo inicial dialoga com o Menino de Pessoa. No poema, ele “fugiu do céu”; em Giotto, já nasceu na terra. O divino não desce em espetáculo: chega em silêncio.

A Adoração dos Pastores, de Caravaggio (1609) - Imagem: Reprodução
A Adoração dos Pastores, de Caravaggio (1609) - Imagem: Reprodução

Com Picasso, a questão já não é representar o sagrado, mas reconstruir o olhar. Em Paulo como Arlequim, a infância não é imagem sentimental. É presença quenos obriga a sustentar o olhar.

Picasso dizia ter levado a vida inteira para aprender a pintar como criança. Não se trata deingenuidade, mas de desaprendizado. Libertar-se do olhar treinadodemais, dosentido previsível.

Paulo como Arlequim, de Picasso (1924) - Imagem: Reprodução
Paulo como Arlequim, de Picasso (1924) - Imagem: Reprodução

Em Paul Klee,esse caminho se torna consciente. Obras como Ad Parnassumparecem simples, quase infantis, mas revelam rigor e paciência. A infância surgecomo formade relação com o mundo: ver sem pressa de concluir, permitir que osentido surja.

Nesse ponto, o percurso se fecha. O Menino Jesus de Pessoa, Giotto, Caravaggio, Picasso e Klee não falam da mesma coisa, mas olham na mesma direção. Todosparecem concordarque o essencial não está na explicação, mas na atenção.

Ad Parnassum, Paul Klee (1932) - Imagem: Reprodução
Ad Parnassum, Paul Klee (1932) - Imagem: Reprodução

E é quando esse olhar, depois de percorrer o mundo, se recolhe, que o Menino deixa a cena pública e passa a habitar o espaço mais íntimo.

“Ao anoitecer, brincamos...

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens

E ele sorri, porque tudo é incrível...

Depois ele adormece e eu deito-o,

levo-o ao colo para dentro de casa...”

Ao final do poema, o Menino já não está fora. Dorme dentro da alma do poeta e, àsvezes, acorda de noite para brincar com seus sonhos. O Natal deixa de ser data oucena. Torna-se companhia.

E então vem a inversão final, de uma ternura desarmante:

“Quando eu morrer, filhinho,

seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

e leva-me para dentro da tua casa.”

Talvez seja esse o Natal que Fernando Pessoa nos ofereceu, e que a arte, ao longo dos séculos, tentou preservar. Um Natal sem espetáculo, sem excesso, sem dogma. Um Natal em que olhar basta. Um Natal em que, por um instante, tudovale a pena.


últimas notícias