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Sem Globo, FPF experimenta novo modelo para venda dos direitos de transmissão do Paulista

A Federação Paulista de Futebol (FPF) colocará em prática, a partir de 2022, um novo modelo para a venda da transmissão do Campeonato Paulista. Em vez de

Sem Globo, FPF experimenta novo modelo para venda dos direitos de transmissão do Paulista
Sem Globo, FPF experimenta novo modelo para venda dos direitos de transmissão do Paulista

Publicado em 04/10/2021, às 00h00 - Atualizado às 17h57 Redação


Com apoio dos clubes, federação vendeu pacotes de partidas do torneio de 2022 para Record e YouTube. Entidade decide agora se terá pay-per-view próprio ou repassará direitos

A Federação Paulista de Futebol (FPF) colocará em prática, a partir de 2022, um novo modelo para a venda da transmissão do Campeonato Paulista. Em vez de vender todos os direitos apenas para a Globo, como fez nos últimos anos, a entidade experimentará a comercialização de pacotes de jogos para variadas plataformas.

Duas parcerias foram fechadas até o momento. Na TV aberta, os direitos foram comprados pela Record. A emissora adquiriu a transmissão de 16 partidas. Na internet, o YouTube também comprou um pacote com 16 jogos – que inclui 12 da fase de grupos, uma das quartas de final, uma semifinal e os dois confrontos na decisão. Os únicos dois confrontos que coincidem no acordo com ambas as empresas são os dois jogos da final.

A FPF agora avalia se fará a transmissão de todas as partidas em plataforma própria, o Paulistão Play, viabilizado pela startup LiveMode, ou se também repassará os direitos de pay-per-view. O Premiere, da Globo, é uma das possibilidades. A entidade também estuda vender um novo pacote de jogos, desta vez para TV fechada.

Palmeiras x São Paulo, final do Paulistão 2021 — Foto: Marcos Ribolli

Palmeiras x São Paulo, final do Paulistão 2021 — Foto: Marcos Ribolli

O novo modelo para a venda dos direitos de transmissão foi conduzido pela federação, com a validação de todos os clubes que participam do estadual. Esta é a primeira negociação que segue as diretrizes da Lei do Mandante, aprovada pelo Congresso brasileiro em agosto.

Valores vêm sendo mantidos em sigilo por todas as partes do negócio: clubes, federação e parceiros. O contrato em vigor até 2021, com a Globo, estava em R$ 225 milhões anuais. Após a pandemia e a mudança da postura da emissora no mercado, esse número é difícil de repetir.

YouTube atrás de anunciantes

Após adquirir 16 partidas do Campeonato Paulista, o YouTube partiu ao mercado publicitário para encontrar patrocinadores para seu pacote de futebol. A empresa, de propriedade do Google, precisará captar mais dinheiro do que gastou na compra dos direitos para lucrar.

De acordo com a apresentação comercial, obtida pela reportagem, a companhia criou quatro cotas estimadas em R$ 19,5 milhões cada. Potencialmente, portanto, o faturamento poderá chegar a R$ 78 milhões. Na prática, é comum que descontos sejam concedidos.

Além da transmissão em si do Campeonato Paulista, o YouTube oferece ao mercado a visibilidade em canais de clubes, na exibição do Paulista Feminino e em criadores de conteúdo – “Desimpedidos” e “Passa a Bola”.

Os resultados que a empresa obterá em 2022 servirão, de certa forma, como sinalização ao mercado sobre o futuro da transmissão do futebol. A entrada dos gigantes da tecnologia é aguardada por dirigentes, sobretudo em negociações maiores, como a do Campeonato Brasileiro.

YouTube mira R$ 78 milhões em faturamento com pacote de futebol em 2022 — Foto: Reprodução

Globo fora do Paulista

Até a edição de 2021, a Globo desembolsava R$ 225 milhões por ano para adquirir todos os direitos de transmissão do Campeonato Paulista. Esse valor inclui os pagamentos a todos os clubes, que por sua vez cediam parte de suas receitas para a federação estadual.

A emissora fez propostas para adquirir os direitos de TV aberta de 2022, mas se retirou da disputa. Consultada pela reportagem, a direção da Globo afirma que “a escalada dos valores dos direitos esportivos impôs uma revisão no investimento” que faz no futebol.

– Temos enorme respeito e reconhecimento pela Federação Paulista de Futebol e pelo Paulistão e a certeza de que, ao longo dos anos, tanto a Globo como o futebol paulista se beneficiaram mutuamente desta parceria. Somos o maior parceiro e investidor do esporte e do futebol em especial no Brasil. Papel que desempenhamos há algumas décadas – afirma a emissora ao ge.

– Nos últimos anos, vivemos um período de transição nos negócios no esporte e na mídia como um todo. A escalada dos valores dos direitos esportivos nos impôs uma revisão no investimento do portfólio de todas as janelas, com inúmeras decisões de investimento, sempre mirando a sustentabilidade dos negócios. Nos negócios nem sempre se conciliam possibilidades e expectativas. Foi o caso.

A saída do Paulista coloca pontos de interrogação sobre o modelo que a emissora adota no futebol há muitos anos, sobretudo no pay-per-view, o Premiere. Sem as partidas dos estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro – que fez em 2021 sua edição sem a Globo –, o apelo comercial do produto perante o público será reduzido, pois terá menos partidas.

Apesar de ainda existir a possibilidade de um acerto entre FPF e Globo para os direitos de pay-per-view, a negociação não é simples. Isso porque a federação decidiu lançar em janeiro deste ano uma plataforma própria, o Paulistão Play. Para a exibição dos jogos no Premiere, teoricamente, teria de haver exclusividade. Esses produtos concorreriam.

Sobre o pay-per-view do Paulista, a Globo afirma que “mantém o diálogo e avalia possibilidades”. Questionada pela reportagem sobre o impacto que a saída desse estadual causará no Premiere, a empresa diz que ainda conta com a maior oferta de conteúdo nesse tipo de plataforma, considerando os demais campeonatos sob contrato.

Leia o posicionamento da Globo sobre o Premiere na íntegra:

“O Premiere tem representado, há anos, a maior e mais completa oferta do futebol brasileiro (principais estaduais, Copa do Brasil, Séries A e B), colocando à disposição dos torcedores assinantes uma grande oferta de jogos, de maneira organizada. Valorizamos todos os campeonatos do futebol brasileiro, incluindo o Paulista.

É importante ressaltar também o impacto positivo do Premiere no futebol nacional, com ganhos crescentes para os clubes e as federações parceiras. Nesta sociedade os clubes são remunerados nos meses de campeonato nacional com uma participação da receita, ponderada pelo percentual de cadastro de cada torcida.

A ausência de oferta de um Estadual fragmenta a experiência para o torcedor dos times deste estado, o que pode gerar impacto na remuneração dos clubes durante os campeonatos nacionais, seja por reduzir a receita ou por alterar a proporção da torcida na base.

O Premiere continuará oferecendo conteúdo de qualidade com base nos direitos que adquirimos e em modelos de negócios que sigam gerando, de forma sustentável, benefícios para os clubes, para os torcedores e para a Globo.”

A experiência carioca

A tentativa paulista não é a primeira. Em 2021, o Campeonato Carioca foi disputado sob um novo modelo de direitos de transmissão. A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) também optou por fragmentar os direitos de seu estadual entre vários parceiros.

Em resumo, a competição teve menos audiência e arrecadou menos do que seu contrato anterior rendia. Considerando os valores que chegam até as contas bancárias dos clubes, o montante passou de R$ 120 milhões anuais, até 2019, para menos de R$ 20 milhões em 2021.

Houve muitas queixas de demora nos repasses e boa parte da verba acabou consumida por custos de produção do campeonato.

Nos bastidores, os responsáveis pelo Campeonato Paulista evitam a comparação com os vizinhos. A entrada de um parceiro com o porte do Google, que não existiu no caso carioca, dá impulso à esperança por resultados melhores para os clubes e para a federação em São Paulo.

Ambos os estaduais são experimentos que influenciarão na maior negociação de direitos de transmissão do futebol nacional, a que envolve o Campeonato Brasileiro, cujos contratos atuais estão em vigor até 2024. O sucesso – ou o fracasso – dos novos modelos dará base para que dirigentes tomem as próximas decisões.

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Globo Esporte

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