Astrologia, reforma agrária e resistência indígena estão entre os temas que as três escolas apostam para brilhar no Grupo Especial e disputar o título do Carnaval paulistano

Letícia Sales Publicado em 12/02/2026, às 18h09
Rosas de Ouro

Fundada em 18 de outubro de 1971, na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo, a Sociedade Rosas de Ouro nasceu da iniciativa de quatro amigos — José Luciano Tomás da Silva, João Roque “Cajé”, José Benedito da Silva (Zelão) e Eduardo Basílio — que animavam partidas do time de várzea Glorioso da Brasilândia com uma batucada que rapidamente conquistou o bairro. O entusiasmo dos moradores impulsionou a criação da escola de samba, que daria início a uma das trajetórias mais vitoriosas do Carnaval paulistano.
De origem humilde, a agremiação contou com o apoio financeiro de comerciantes da região para realizar seus primeiros desfiles. O nome foi inspirado na tradição do Vaticano de conceder a “Rosa de Ouro” como símbolo de reverência e estima — honraria entregue, inclusive, à Princesa Isabel após a assinatura da Lei Áurea.
A estreia no Carnaval ocorreu em 1973, no segundo grupo, quando conquistou o quarto lugar. No ano seguinte, sagrou-se campeã e garantiu vaga no grupo principal. Já na primeira participação entre as grandes, alcançou o vice-campeonato. Em 1983, veio o primeiro título no Grupo Especial, com o enredo Nostalgia, assinado pelo compositor Zeca da Casa Verde. Desde então, a escola acumulou sete títulos na elite e consolidou-se como uma das mais tradicionais da cidade, reconhecida pelo luxo das alegorias, pelos sambas marcantes e pela regularidade — raramente ficando abaixo da sexta colocação em mais de quatro décadas no Grupo Especial.
Em 2026, a Rosas de Ouro volta ao Sambódromo do Anhembi como atual campeã e promete transformar a avenida em um grande espetáculo cósmico. O enredo deste ano mergulha na astrologia e propõe uma narrativa que une ciência, arte e simbolismo dos astros para contar a relação ancestral da humanidade com o céu.
O desfile será apresentado em ordem cronológica, partindo da explosão do universo, passando pelo surgimento da astrologia — com destaque para a mítica Atlântida — e percorrendo civilizações como Egito, Grécia, Maia e Índia até chegar à contemporaneidade e à chamada Era de Aquário.
“O grande destaque é Atlântida, considerada o berço da civilização que introduziu a astrologia”, explicou o carnavalesco Fábio Ricardo. Segundo ele, a proposta partiu do diretor de Carnaval, Evandro do Rosas, e busca mostrar como diferentes culturas utilizaram os astros para interpretar o mundo e orientar decisões cotidianas.
A apresentação também presta homenagem a nomes que ampliaram as fronteiras do conhecimento, como Ptolomeu, Galileu Galilei, Nostradamus, os Reis Magos e Leonardo da Vinci. As personalidades serão representadas no terceiro carro alegórico, intitulado “Observatório de Saberes Astrológicos”. A influência italiana terá espaço de destaque, ressaltando a contribuição de pensadores desde a Roma Antiga até o Renascimento.
Embalada pelo samba-enredo de Aquiles da Vila e seus parceiros — pelo segundo ano consecutivo — a escola aposta em uma melodia contemplativa e versos que reforçam sua identidade, como o trecho “De alma azul com ascendente em rosa”.
Apesar da expectativa por mais um desfile impactante, a Rosas de Ouro entra na avenida com uma desvantagem de 0,5 ponto. A penalização foi aplicada pela Liga-SP após dificuldades técnicas que impediram a entrega da pasta de jurados dentro do prazo estabelecido pelo regulamento do Carnaval 2026.
Mesmo diante do desafio, a escola da Brasilândia confia na força de seu conjunto plástico e na tradição de encantar o público com elegância e requinte para buscar mais um título e reafirmar seu protagonismo na história do Carnaval de São Paulo.
Tatuapé

Fundada em 26 de outubro de 1952 por Osvaldo Vilaça, o Mala, a atual Acadêmicos do Tatuapé surgiu com o nome de Unidos de Vila Santa Isabel, em referência ao bairro localizado na divisa entre Tatuapé e Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Em 1964, após a mudança da sede para a Rua Antônio de Barros, a escola adotou o nome que mantém até hoje.
Desde os primeiros anos, a agremiação construiu uma trajetória ligada à força do samba da zona leste, que já era respeitado nas tradicionais rodas realizadas na Praça da Sé, no centro da capital. A proximidade de Mala com Mano Décio da Viola, um dos fundadores da Império Serrano, estreitou laços com o Carnaval carioca e garantiu à escola do Rio o posto de madrinha da Tatuapé.
Com essa base histórica, a Acadêmicos do Tatuapé chega ao Carnaval 2026 apostando em mais um enredo de forte cunho social. Na madrugada deste sábado (14), a escola levará ao Sambódromo do Anhembi o tema “Plantar para Colher e Alimentar: Tem Muita Terra Sem Gente e Muita Gente Sem Terra”, em homenagem ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
A proposta é apresentar uma perspectiva que vá além da ocupação de terras, destacando iniciativas voltadas à produção agrícola e à sustentabilidade. “Queremos mostrar que o MST vai muito além da ocupação de terras. Vamos levar para o Anhembi a força da produção camponesa, da agricultura sem veneno e sem destruição ambiental”, afirmou a diretora de Carnaval, Patrícia Lafalce, em entrevista ao site do movimento.
Segundo o presidente da escola, Eduardo Santos, a escolha do enredo está alinhada ao perfil recente da agremiação, que tem priorizado temas de impacto social. Em 2025, a Tatuapé abordou a temática da Justiça e conquistou o vice-campeonato, ficando a apenas 0,1 ponto do título.
“Todo ano escolhemos o enredo com base na força visual, na potência musical, no impacto cultural e nas parcerias que conseguimos consolidar”, explicou o dirigente.
Campeã do Carnaval paulistano em 2017 e 2018, a Acadêmicos do Tatuapé aposta em um desfile que combine posicionamento, estética e narrativa consistente para voltar ao topo. Em um Grupo Especial marcado por disputas acirradas, a escola promete transformar a avenida em espaço de reflexão sobre terra, alimento e desigualdade no Brasil.
Gaviões da Fiel

A trajetória da Gaviões da Fiel no Carnaval paulistano começou na década de 1970, quando a torcida organizada buscava uma forma de manter seus associados mobilizados fora da temporada de campeonatos do Sport Club Corinthians Paulista. A solução foi levar as cores preto e branco para a folia, inicialmente como ala em escolas de samba, até a fundação do Bloco Gaviões da Fiel, em 1975, por Ângelo Fasanelo.
O bloco estreou no último desfile realizado na Avenida São João e, já em 1976, conquistou seu primeiro título com o enredo “Vai Corinthians”. Em 13 anos, acumulou 12 campeonatos, desempenho que chamou a atenção da Liga das Escolas de Samba de São Paulo. Convidados a disputar o acesso, os Gaviões estrearam como escola de samba em 1989 com um vice-campeonato. O primeiro título no Grupo Especial veio em 1995, com o enredo “Coisa boa é para sempre”, levando 3.500 componentes à avenida.
Desde então, a escola se consolidou entre as principais do Carnaval da capital, destacando-se pelo grande número de integrantes, pela estrutura grandiosa e pela fidelidade às cores e à identidade corinthiana, aliando inovação estética à preservação de suas origens.
Neste Carnaval, a Gaviões da Fiel será a quarta escola a desfilar na madrugada deste sábado (14), na segunda noite do Grupo Especial, no Sambódromo do Anhembi. Após alcançar o terceiro lugar em 2025, a agremiação retorna com um enredo de forte cunho político e ambiental: “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”.
A proposta conecta passado, presente e futuro ao exaltar a luta e o legado dos povos indígenas. A narrativa do desfile será guiada pela lenda da Yakoana, o sopro sagrado utilizado por xamãs como instrumento de acesso ao mundo espiritual, elemento simbólico que servirá para apresentar a floresta como um organismo vivo e sagrado.
Ao longo da apresentação, a escola deve traçar um paralelo entre a sabedoria ancestral dos povos originários e os desafios contemporâneos, como as mudanças climáticas e a devastação ambiental. O foco recai sobre a resistência indígena frente à invasão de territórios e à exploração predatória, transformando o desfile em um manifesto pela preservação das florestas e dos biomas brasileiros.
Com impacto visual, carga simbólica e posicionamento claro, a Gaviões da Fiel aposta em uma experiência sensorial e reflexiva para reafirmar seu protagonismo no Carnaval paulistano, mantendo viva a combinação entre identidade popular, engajamento social e espetáculo na avenida.
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