
por Gabriella Alves Andrade
Publicado em 14/08/2025, às 09h30
O câncer não é uma doença. É um conjunto de mais de 500 diagnósticos diferentes, que compartilham apenas a multiplicação de células malignas." A frase do diretor médico do A.C. Camargo Cancer Center, Antônio Antonietto, deu o tom da discussão durante o evento Retratos do Câncer, realizado pelo Estadão na última quinta-feira (31). Com quatro painéis temáticos e três brand talks, o encontro reuniu representantes do Instituto Nacional de Câncer (Inca), da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), médicos, pesquisadores, executivos do setor de saúde e pacientes para discutir os desafios, avanços e perspectivas no combate à doença no país.
Todos nós temos algum parente, amigo, ou conhecido que precisou passar pelo tratamento oncológico. O câncer é uma realidade para qualquer pessoa, seja ela mais jovem, mais velha, com hereditariedade da doença, e independente da condição social. E é sobre isto que o Estadão se propôs a falar na 5ª edição do evento.
O primeiro painel, “Prevenção, diagnóstico e tratamento no Brasil: avanços, desafios e sustentabilidade”, abordou os obstáculos enfrentados no sistema de saúde, as causas externas mais comuns do câncer e a importância de políticas públicas de prevenção. Os profissionais convidados deram um destaque importante para o fumo e a obesidade, a dificuldade de acesso a protetores solares, que ajudam a prevenir o câncer de pele, além dos desafios culturais que dificultam diagnósticos precoces, como a resistência a exames íntimos de prevenção.
Um tópico de extrema importância foi a vacinação contra o HPV, fundamental para a erradicação do câncer de colo de útero. A vacina é segura, gratuita e oferecida em escolas públicas, mas a baixa adesão é atribuída a falhas de comunicação. O mesmo vale para as vacinas contra hepatite A e B, que ajudam a prevenir o câncer hepático. Ou seja, de acordo com a chefe do Laboratório de Inovação em Câncer do ICESP, Luisa Lina Villa, é preciso um esforço de comunicação em massa para que a população se sinta segura para ser vacinada.
A saúde emocional também entrou em pauta no debate. Andreia Melo, chefe da Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do INCA, reforçou que o estresse pode enfraquecer o sistema imunológico e aumentar a vulnerabilidade ao câncer, mas não quer dizer que uma única situação de estresse possa causar a doença. Após o diagnóstico, o apoio psicológico e psiquiátrico ao paciente e à família se mostra essencial para uma jornada mais acolhedora e digna.
Nos brand talks, o foco foi nas estratégias para consolidar o Brasil como uma referência global em tratamento oncológico. A medicina de precisão tem um grande potencial no país, se houver investimento. Ela identifica fusões e mutações específicas, personalizando o tratamento e permitindo, em alguns casos, evitar cirurgias invasivas. A imunoterapia, considerada o quarto pilar no combate ao câncer, foi também apontada como uma das tecnologias mais promissoras.
No entanto, o acesso a essas inovações ainda é limitado. A velocidade com que novas terapias são desenvolvidas supera a capacidade do sistema público de incorporá-las. A falta de equipamentos, de profissionais capacitados e de estudos clínicos preliminares — especialmente nas regiões mais carentes — também dificulta a ampliação do acesso.
Como apontaram os especialistas do Einstein Fernando Moura, Rodrigo Gobbo e Vanessa Teich, o Brasil precisa de soluções próprias, considerando o perfil regional do país, a jornada dos pacientes e os recursos disponíveis. A criação de uma ponte entre os setores público e privado, com modelos integrados como o da fila única de transplantes, é uma sugestão de política eficaz a ser replicada.
Durante o segundo brand speech, em referência ao Agosto Branco — mês de conscientização sobre o câncer de pulmão —, a paciente Mara Rafaeli compartilhou sua experiência após o diagnóstico. O vídeo mostrado contando sua história reforça ainda mais a importância do acolhimento por parte da equipe médica e como a doença afeta não apenas fisicamente, mas também, psicologicamente, o paciente oncológico.
O médico especialista que a acompanha, William Nassib William Junior, lembrou dos desafios enfrentados há duas décadas, quando havia poucas opções de tratamento e índices de tabagismo mais altos. Apesar dos avanços, o câncer de pulmão ainda é o segundo mais comum no Brasil.
O segundo painel, “Futuro do tratamento oncológico”, discutiu terapias inovadoras como a terapia gênica e a terapia CAR-T. Embora os resultados em cânceres hematológicos sejam animadores, ainda há desafios na aplicação dessas técnicas em tumores sólidos.
De volta à imunoterapia, o tratamento já é uma realidade para 60 a 70 tipos de câncer — mas não para todos os brasileiros. Segundo o oncologista Rafael, a não incorporação dessas terapias no SUS impede que cerca de 80% da população tenha acesso a tratamentos de ponta. A desigualdade no diagnóstico e tratamento é acentuada por problemas estruturais, como a desorganização das compras públicas e a falta de um teto de gastos, o que encarece ainda mais o sistema.
A memória da atriz Preta Gil, que faleceu recentemente, prevaleceu durante o debate, considerando sua luta contra um câncer gastrointestinal.
O terceiro painel, “Cuidados paliativos e qualidade de vida: humanizando a jornada oncológica”, reforçou a importância do bem-estar em todas as fases do tratamento. Especialistas defenderam práticas humanizadas e o suporte integral aos pacientes e suas famílias, mesmo em cenários clínicos desafiadores.
Encerrando o evento, o quarto painel, “Câncer no Brasil: desigualdades regionais e soluções para um acesso equitativo”, abordou as disparidades regionais e o papel de instituições como o Instituto Oncoguia, o Instituto Lado a Lado pela Vida e o ICESP. Entre as estratégias discutidas estiveram a descentralização de recursos, a capacitação local de profissionais e o fortalecimento de políticas públicas que garantam acesso universal e digno ao tratamento oncológico.
O evento também contou com uma entrevista com a influenciadora e empresária Fabiana Justus, que compartilhou sua jornada após o diagnóstico de câncer, trazendo um olhar sensível e realista sobre os desafios da vida durante e após o tratamento.
“Retratos do Câncer” mostrou que a luta contra o câncer vai muito além da medicina: exige empatia, políticas públicas efetivas, investimento em ciência e, sobretudo, um esforço coletivo para tornar a inovação acessível a todos. Como reforçaram os participantes, o Brasil precisa construir suas próprias soluções — e tem, no SUS, um ponto de partida único no mundo.
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