COLUNA

A arte explica a luz de cada um de nós

- Imagem: Reprodução / Freepik

Marlene Polito Publicado em 04/01/2025, às 13h17

Na varanda, procuro encontrar os vestígios da mata e do rio que me encantaram na infância. Está escuro, noite de lua cheia, e meu coração só se acalma com a presença de meu avô e de seu inominável cachimbo com fumo de rolo.
Ele ri quando me diz que às vezes as rãs chegam ao casarão, e eu me assusto. É ecologia demais para eu administrar. O ar sopra entre as folhas, grilos e outros insetos criam uma sinfonia desconcertante, e tudo me parece justo e certo. Há paz.
De repente, vejo uma luzinha no meio das folhas. Outras surgem: no capinzal, entre as hastes das taboas, nos carrapichos e picões. Pequenos pontos brilhantes dançam no ar. E tudo ganha vida, cor, um novo espaço, outro tempo
– vagalumes acendendo estrelas!
Boquiaberta, vejo meu avô sorrir. “Luz é tudo na vida da gente.” Diz ele, e novamente se cala.
Fiel à minha natureza inquisidora, pergunto por que a dança luminosa parece mais mágica do que científica. E a resposta vem em termos simples demais:
“No corpo deles, as enzimas produzem uma reação química que transforma energia em luz. Chamam isso de bioluminescência. É um milagre da natureza. Para o vagalume, essa luz é sobrevivência – atrai parceiros, afasta predadores e comunica com outros da mesma espécie.” Onde será que esse velho senhor aprendeu tudo isso?

Olho para ele com admiração e afeto. Professor à moda antiga e líder de toda a família, ele sempre foi uma luz. E reflito como usamos nossas "luzes" para nos comunicar, criar e deixar uma marca no mundo e nos outros.
A música dos Beatles me vem à memória. Here comes the sun ... (Aqui vem o sol ...). Escrita por George Harrison, celebra a chegada da luz após um período de escuridão, tanto literal (inverno) quanto metafórico – ele a compôs em um momento de renovação pessoal. Cantarolo baixinho; o velhinho de 96 anos dorme.
“Luz é tudo na vida da gente”?
Se acompanharmos a evolução humana, veremos que essa frase é uma verdade incontestável. A luz nunca foi apenas um fenômeno físico. É também um universo de significados culturais, emocionais e espirituais.
Luz e espiritualidade – Em muitas religiões, a luz representa divindade, esperança e salvação. No Egito Antigo, o deus-sol Rá simbolizava vida e criação, atravessando o céu em sua barca solar e renascendo ao amanhecer. A
Bíblia inicia com "Haja luz”, apontando o início de tudo, e o Budismo associa a iluminação ao estado mais elevado da existência humana.
A obra “A transfiguração” de Rafael, captura o momento em que Jesus irradia luz divina, representando a conexão entre o espiritual e o humano.

A transfiguração, de Rafael (1518 -1520)

 

Luz como símbolo de conhecimento e razão – Na Grécia Antiga, Platão, em sua
alegoria da caverna, usa a luz como símbolo da verdade e da libertação da
ignorância – um conceito que acaba se estendendo à ciência moderna. O
Iluminismo trouxe “a luz da razão” contra as trevas da superstição, exaltando o
conhecimento como guia da humanidade.
Luz e sombras – a dualidade humana – A luz define e dá sentido às sombras. Assim como o sol define os contornos de tudo que ilumina, nós também somos moldados pela dualidade entre luz e escuridão. Momentos de clareza, bondade ou inspiração contrastam com os períodos de dúvida, egoísmo ou dor. Caravaggio capturou essa dualidade em Judite e Holofernes, onde o jogo de claro-escuro traduz a complexidade humana.

Judite e Holofernes, de Caravaggio (ca. 1599)


Luz individual e própria – Na contemporaneidade o valor individual é exaltado. Cada pessoa carrega uma luz única, refletindo sua singularidade e essência. Este brilho, embora indescritível, é constantemente buscado, celebrado e projetado — seja pelas redes sociais ou pelas interações do cotidiano.

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