Diálogo ocorreu em meio à falta de apoio do alto comando militar ao plano golpista, que tinha como objetivo impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e manter Jair Bolsonaro no poder
William Oliveira Publicado em 27/11/2024, às 11h50
O relatório conclusivo da Polícia Federal, que resultou no indiciamento de 37 indivíduos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, por crimes como abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado e formação de organização criminosa, trouxe à tona referências à ditadura militar brasileira feitas pelos investigados.
Entre as comunicações interceptadas pela PF, destaca-se uma mensagem de Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro, na qual expressa frustração pela demora na emissão de um decreto que daria início ao golpe. Em diálogo com o tenente-coronel Sergio Ricardo Cavaliere de Medeiros, Cid menciona que, em 1964, não houve necessidade de formalizações para o golpe militar. Ambos foram alvos do indiciamento.
"Em 64 não precisou de ninguém assinar nada…", disse Mauro Cid.
Cavaliere rebateu a comparação, alegando que, naquele contexto, era necessária uma iniciativa clara para a execução do golpe. A conversa ocorreu em meio à falta de apoio do alto comando militar ao plano golpista, que visava impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva e manter Bolsonaro no poder. "Fomos covardes, na minha opinião", declarou Cavaliere, ao que Cid respondeu: "Fomos todos", referindo-se ao presidente da República e aos comandantes das Forças Armadas. "Estamos ferrados", concluiu o tenente-coronel.
O extenso documento de 884 páginas detalha os esforços do grupo para minar a credibilidade do processo eleitoral, incluindo planos para assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. A investigação revelou a estruturação dos envolvidos em seis núcleos operacionais voltados à desestabilização democrática.
Todos os indiciados negam as acusações. O ministro Alexandre de Moraes encaminhou o relatório à Procuradoria-Geral da República (PGR), que avaliará a robustez das evidências apresentadas para decidir sobre possíveis denúncias contra os investigados ou requerer novas diligências.
Caso a PGR opte por denunciar e o STF aceite as denúncias, os acusados passarão à condição de réus e enfrentarão um julgamento onde poderão apresentar suas defesas perante as acusações formuladas.