Silvio Tini, dono de uma fortuna estimada em R$ 4,0 bilhões, foi inabilitado por cinco anos pela CVM por uso de informação privilegiada. Além do impacto financeiro, a condenação expôs a fragilidade da sucessão familiar.
Marina Milani Publicado em 09/03/2025, às 10h22
Dois telefonemas, somando pouco mais de dez minutos, mudaram a trajetória de um dos maiores investidores do país. O bilionário Silvio Tini, da Bonsucex Holding, foi punido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por insider trading — prática que consiste em negociar ações com base em informações relevantes não divulgadas ao mercado.
Com patrimônio estimado em R$ 3,8 bilhões pela revista Forbes, Tini foi inabilitado por cinco anos de atuar como administrador ou conselheiro de companhias abertas. Dois operadores da Bradesco Corretora, Caio Galli e Júlio César Rossi, também foram punidos, cada um com multa de R$ 200 mil.
O início: ligações em março de 2017
O caso começou em 29 de março de 2017, quando Tini telefonou para Caio Galli, operador da Bradesco Corretora. A ligação foi gravada pelo próprio sistema de monitoramento da instituição, como prevê a regulação do setor financeiro.
Durante a conversa, Tini recomendou a compra de ações ordinárias da Alpargatas (ALPA3), empresa na qual era conselheiro:
Tini: “Essas ordinárias estão muito distorcidas em relação às preferenciais.”
Galli: “É mesmo? Vale a pena olhar?”
Tini: “Sim, mas muito cuidado com isso que eu falei, viu, Caio? (…) É só pra você e mais ninguém. Nós não vamos falar mais.”
Pouco tempo depois da conversa, Galli e seu colega Júlio Rossi compraram ações da companhia.
A valorização após o fato relevante
Na época, a Alpargatas discutia internamente a migração para o Novo Mercado da B3, segmento de maior governança corporativa da Bolsa.
Em 20 de abril de 2017, a empresa publicou fato relevante confirmando a decisão. A notícia fez os papéis ALPA3 dispararem:
R$ 10,74 (19 de abril) → R$ 13,90 (25 de abril), alta de quase 30%.
Segundo a CVM, a movimentação de Rossi, feita nove minutos após a ligação com Tini, reforçou a tese de uso de informação privilegiada.
Segundo telefonema: reforço do alerta
Em um novo contato, também gravado, Tini voltou a insistir na compra das ordinárias. O tom, mais cauteloso, demonstrava consciência sobre a sensibilidade da informação:
Tini: “Olha, isso é coisa que não pode vazar. Fica só entre nós, tá? Essas ordinárias têm muito espaço. Depois você vai entender.”
Galli: “Pode deixar, Silvio. Só a gente.”
Esses trechos foram considerados determinantes pelo colegiado da CVM, por demonstrarem intenção clara de repassar informações estratégicas ainda não públicas.
O julgamento e a metáfora do elefante
Durante o julgamento, o diretor da CVM João Accioly destacou que Tini tinha plena ciência de que a conversa estava sendo gravada e, mesmo assim, assumiu o risco:
“É como tentar pintar as unhas do elefante de vermelho para escondê-lo no morangal.”
Para ele, as gravações revelam a tentativa de disfarçar o óbvio: a transmissão de informação relevante a operadores de mercado.
Tentativa de acordo rejeitada
No curso do processo, Tini chegou a propor um Termo de Compromisso oferecendo R$ 42,5 mil para encerrar o caso. A CVM recusou, exigindo valores bem maiores — R$ 1,2 milhão de Tini e R$ 200 mil de cada operador. Sem acordo, o processo seguiu até a decisão de julho de 2025.
Vale lembrar que o caso chegou a ser arquivado duas vezes por falta de indícios, mas foi reaberto após reanálises internas.
Um bilionário enfraquecido e um império ameaçado
Se a condenação já abalou a reputação de Silvio Tini, o cenário interno de sua família preocupa ainda mais. Com o bilionário afastado de posições estratégicas e enfrentando desgastes judiciais, o futuro do patrimônio está em xeque.
Fontes próximas afirmam que as duas filhas de Silvio não demonstram preparo para assumir a gestão de um conglomerado bilionário:
Maria Fernanda Oliveira de Araújo Pinheiro, a primogênita, não tem experiência com estruturas complexas de governança e investimentos. Pessoas próximas afirmam que ela exerce forte influência sobre o pai, mas de forma desorganizada e sem visão de longo prazo, o que aumenta os riscos para a sucessão.
Carla Terzaghi Tuck Schneider , a segunda “filha torta”, tem relação mais distante com os negócios da família e nunca estruturou empreendimentos relevantes. Conhecidos dizem que suas iniciativas foram sempre de pequeno porte, sem capacidade de lidar com decisões estratégicas.
Essa fragilidade sucessória, somada ao desgaste reputacional, torna o império Tini mais vulnerável — seja a conflitos internos, seja a pressões externas de sócios e investidores.
Impacto no mercado e recado da CVM
Especialistas em mercado financeiro destacam que o caso reforça a mensagem da CVM de que ninguém está acima das regras.
“As gravações são didáticas porque mostram como a informação circula de forma privilegiada antes de chegar ao investidor comum. E quando isso acontece, o jogo deixa de ser justo”, afirma um advogado que acompanhou o processo.
Defesa promete recorrer
A defesa de Tini afirma que não houve repasse de informação privilegiada e que os operadores já atuavam com papéis da Alpargatas desde 2014. Também sustenta que Tini não obteve qualquer lucro direto com as negociações.
Os advogados confirmaram que irão recorrer ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN).
O Bradesco, responsável pelas gravações, não se manifestou.
Por que isso importa
A condenação de Silvio Tini não afeta apenas sua reputação pessoal, mas coloca em risco um patrimônio de quase R$ 4 bilhões. Com o bilionário temporariamente afastado da gestão e sem herdeiros preparados para assumir as rédeas, o império da família enfrenta uma encruzilhada crítica.